{"id":12965,"date":"2019-09-12T22:34:31","date_gmt":"2019-09-12T22:34:31","guid":{"rendered":"http:\/\/race01.wp\/resources\/deixem-de-nos-matar-grupo-conexao-g-da-favela-da-mare\/"},"modified":"2023-08-04T17:53:40","modified_gmt":"2023-08-04T17:53:40","slug":"deixem-de-nos-matar-grupo-conexao-g-da-favela-da-mare","status":"publish","type":"resources","link":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/resources\/deixem-de-nos-matar-grupo-conexao-g-da-favela-da-mare\/","title":{"rendered":"Deixem de nos matar!: Grupo Conex\u00e3o G da Favela da Mar\u00e9"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Brasil, 12 de setembro de 2019.<\/strong> De 6 a 8 de setembro, o 1\u00ba Festival LGBTI de Cultura e Cidadania das Favelas foi realizado na Favela de Mar\u00e9. No entanto, esse espa\u00e7o se viu marcado por uma opera\u00e7\u00e3o policial que durou aproximadamente 20 horas e deixou duas pessoas mortas. \u00c9 por isso que a comunidade da Mar\u00e9 hoje exige: Parem de nos matar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o ano 2006, o Grupo Conex\u00e3o G realiza um importante trabalho dentro do Complexo da Mar\u00e9. O Complexo da Mar\u00e9 \u00e9 um conglomerado de 19 favelas, localizado no Rio de Janeiro entre as principais vias de acesso da cidade e pr\u00f3xima ao aeroporto internacional. Em 2010, quando foi realizado o \u00faltimo censo pelo governo federal, a Mar\u00e9 contava com cerca de 130.000 moradores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Favela da Mar\u00e9 \u00e9 uma das favelas mais perigosas do Brasil. Sob o comando de narcotraficantes, a Mar\u00e9 \u00e9 constantemente um verdadeiro palco de guerra entre fac\u00e7\u00f5es rivais e tamb\u00e9m com a pol\u00edcia. A l\u00f3gica de guerra \u00e9 autorizada por um discurso de combate \u00e0s drogas que, na verdade, criminaliza todo o conjunto da popula\u00e7\u00e3o da favela. Num cen\u00e1rio em que a essa popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o sistematicamente negados direitos como \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao trabalho, ao lazer, dentre outros, a principal rela\u00e7\u00e3o que o Estado mant\u00e9m com essas pessoas \u00e9 a viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conex\u00e3o G foi a primeira organiza\u00e7\u00e3o no Brasil que come\u00e7ou a trabalhar direta e exclusivamente com a popula\u00e7\u00e3o LGBTI da favela. Desde o seu surgimento, essa organiza\u00e7\u00e3o tem realizado projetos voltados \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica, empregabilidade, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e cultura da popula\u00e7\u00e3o LGBTI negra. A \u00f3tica interseccional \u00e9 uma das caracter\u00edsticas da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em conversa com Race and Equality, Gilmara Cunha, diretora e fundadora do Conex\u00e3o G, contou que, quando a organiza\u00e7\u00e3o surgiu, em 2006, as pessoas LGBTI viviam num contexto de grande viol\u00eancia e opress\u00e3o por parte dos demais moradores da favela \u2013 um contexto que persiste at\u00e9 hoje:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNaquela \u00e9poca, e ainda hoje, a gente vivia muita viol\u00eancia e opress\u00e3o por parte dos demais moradores. A gente n\u00e3o podia participar de alguns espa\u00e7os, porque era agredida f\u00edsica e verbalmente. Um dos momentos mais marcantes foi quando est\u00e1vamos, um grupo de travestis, em um local que tocava samba, quando algumas pessoas come\u00e7aram a tacar cebolas e peda\u00e7os de maneira em n\u00f3s e tivemos que nos retirar daquele ambiente. A partir dali, a gente pensou: \u00e9 preciso fazer alguma coisa para transformar essa realidade e transformar a pol\u00edtica do movimento LGBT, que era e ainda \u00e9 um movimento de classe m\u00e9dia. A gente surge nesse momento, pensando numa agenda que atendesse e inclu\u00edsse de fato a popula\u00e7\u00e3o de favela, porque as pol\u00edticas que s\u00e3o criadas s\u00e3o pensadas para a classe m\u00e9dia e essas pol\u00edticas n\u00e3o nos atingem\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como exemplo, Gilmara cita a recente aprova\u00e7\u00e3o do crime de homofobia pela Suprema Corte do pa\u00eds, que equiparou a homofobia ao crime de racismo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVeja bem: a homofobia foi criminalizada e foi equiparada ao crime de racismo. Se a gente est\u00e1 dentro desse territ\u00f3rio e faz uma den\u00fancia, a pol\u00edcia n\u00e3o vai vir at\u00e9 aqui. Se a pol\u00edcia vier, isso coloca a nossa vida em risco, porque todo mundo se conhece e vai saber quem faz a den\u00fancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, em muitos casos, os moradores das favelas s\u00e3o proibidos pelos traficantes de procurar a pol\u00edcia quando t\u00eam qualquer tipo de problema que possa levar a alguma investiga\u00e7\u00e3o, porque o tr\u00e1fico n\u00e3o quer que a pol\u00edcia esteja presente nas favelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>I Festival de Cultura e Cidadania LGBTI de Favelas: marcado pela trucul\u00eancia policial<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde 2010, o Grupo Conex\u00e3o G realiza todos os anos a Parada LGBTI da Favela da Mar\u00e9. Nesse ano, al\u00e9m da Parada, o Grupo Conex\u00e3o G realizou tamb\u00e9m o I Festival de Cultura e Cidadania LGBTI das Favelas, um evento com apresenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e profissional, pensando arte, cultura, moda, sustentabilidade, pol\u00edtica e empreendedorismo. As atividades foram realizadas entre os dias 6 e 8 de setembro, sendo encerradas com a Parada LGBTI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, no primeiro dia da realiza\u00e7\u00e3o do evento, ocorreu uma opera\u00e7\u00e3o policial na Favela da Mar\u00e9, com o registro de dois habitantes da favela mortos durante a opera\u00e7\u00e3o, que durou cerca de 20 horas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos maiores problemas que a Favela da Mar\u00e9 vive nesse momento \u00e9 o tema das opera\u00e7\u00f5es policiais. O atual governo do Rio de Janeiro tem adotado uma pol\u00edtica de verdadeiro \u201cabate\u201d dentro das favelas, com policiais disparando tiros indiscriminadamente diretamente de helic\u00f3pteros. Como resultado, de janeiro a junho de 2019, 881 pessoas foram mortas em opera\u00e7\u00f5es policiais no estado &#8211; o maior n\u00famero registrado nos \u00faltimos 17 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A opera\u00e7\u00e3o policial afetou a programa\u00e7\u00e3o do evento realizado pelo Conex\u00e3o G e colocou em perigo as pessoas que foram prestigiar o evento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 uma guerra que n\u00e3o \u00e9 contra as drogas, mas sim contra a popula\u00e7\u00e3o pobre, preta e favelada. Por exemplo: ontem houve 2 pessoas assassinadas, v\u00e1rias casas foram violadas. Isso afetou a nossa programa\u00e7\u00e3o durante essa semana, principalmente no primeiro dia. Era tiro toda hora. A gente ficou presa no Centro de Artes da Mar\u00e9 e n\u00e3o podia sair. Isso me faz refletir: que Estado \u00e9 esse que n\u00e3o considera esse espa\u00e7o como parte da cidade? A sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de medo, mas tamb\u00e9m uma sensa\u00e7\u00e3o de que nada pode ser feito. Mas estamos a\u00ed na resist\u00eancia.\u201d, disse Gilmara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mariah Rafaela, do Grupo Conex\u00e3o G e do Instituto Transformar, que tamb\u00e9m estava presente no dia, disse:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foi p\u00e9ssimo. Quando a gente viu, os policiais estavam entrando na favela abaixados e come\u00e7amos a escutar o barulho de tiros, o que certamente nos deixou muito preocupadas pela integridade f\u00edsica das pessoas que tinham ido prestigiar o evento. Foi muito tiro. Nesse momento, tivemos que encerrar as atividades, fechamos o port\u00e3o e ficamos presas l\u00e1 dentro, esperando que o tiro passasse ou que tivesse uma brecha para sairmos de l\u00e1. \u00c9 muito dif\u00edcil produzir esse trabalho na Mar\u00e9, mas seguiremos persistindo. Seguiremos persistindo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por esse motivo, a Parada LGBTI da Favela, realizada no dia 8 de setembro, foi marcada pela den\u00fancia contra a viol\u00eancia policial. Do carro de som, Gilmara Cunha gritava:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEsse Estado nos mata todos os dias! Parem de nos matar! Estamos aqui reivindicando por vidas! Vivemos estes dias praticamente em plena viol\u00eancia, onde a pol\u00edcia adentrava nossas casas, assassinaram moradores, e n\u00f3s n\u00e3o podemos permitir que isso ocorra! Essa cidade n\u00e3o \u00e9 uma cidade partida! A Mar\u00e9 faz parte dessa cidade! N\u00e3o podemos aceitar como se isso fosse algo normal! Chega! Pare! Pare de matar nossa popula\u00e7\u00e3o pobre e favelada! Estamos aqui para reivindicar direitos! Estar aqui hoje \u00e9 um ato de resist\u00eancia!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gilmara Cunha tamb\u00e9m informou que, diante do cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro, este, ao menos em princ\u00edpio, foi o \u00faltimo ano da realiza\u00e7\u00e3o da Parada na Favela da Mar\u00e9: \u201cA princ\u00edpio \u00e9 a \u00faltima parada. S\u00f3 Deus sabe como vai estar o cen\u00e1rio ano que vem\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Race and Equality reconhece que as vidas da popula\u00e7\u00e3o LGBTI moradora de favela requerem uma especial aten\u00e7\u00e3o e visibilidade e parabeniza ao Grupo Conex\u00e3o G pela sua atua\u00e7\u00e3o corajosa diante do grave contexto de viol\u00eancia que existe nas favelas do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuaremos trabalhando pela documenta\u00e7\u00e3o, visibiliza\u00e7\u00e3o e den\u00fancia da situa\u00e7\u00e3o de direitos humanos da popula\u00e7\u00e3o LGBTI negra e perif\u00e9rica no Brasil e exigimos que o Estado Brasileiro garanta o direito dessa popula\u00e7\u00e3o e garanta, tamb\u00e9m, a seguran\u00e7a necess\u00e1ria para a atua\u00e7\u00e3o do Grupo Conex\u00e3o G na Favela da Mar\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brasil, 12 de setembro de 2019. 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