{"id":13236,"date":"2020-10-13T15:17:34","date_gmt":"2020-10-13T15:17:34","guid":{"rendered":"http:\/\/race01.wp\/resources\/rebeldias-lesbicas-o-encontro-de-vozes-de-mulheres-do-brasil-e-da-colombia\/"},"modified":"2023-08-04T18:15:21","modified_gmt":"2023-08-04T18:15:21","slug":"rebeldias-lesbicas-o-encontro-de-vozes-de-mulheres-do-brasil-e-da-colombia","status":"publish","type":"resources","link":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/resources\/rebeldias-lesbicas-o-encontro-de-vozes-de-mulheres-do-brasil-e-da-colombia\/","title":{"rendered":"Rebeldias L\u00e9sbicas: O encontro de vozes de mulheres do Brasil e da Col\u00f4mbia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cL\u00e9sbicas contra a guerra! L\u00e9sbicas contra o capital! L\u00e9sbicas contra o racismo! L\u00e9sbicas contra o terrorismo neoliberal! \u201d <\/em>Foi entoando essas palavras de liberta\u00e7\u00e3o que, em fevereiro de 2007, durante o VII Encontro Feminista de L\u00e9sbicas da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, instituiu-se o dia 13 de outubro, como o dia das Rebeldias L\u00e9sbicas [<a href=\"https:\/\/raceandequality.org\/421\">1]<\/a>. Neste encontro de luta anti-patriarcalista com cerca de 200 mulheres l\u00e9sbicas feministas de diversos pa\u00edses, a data foi decidida coletivamente, atrav\u00e9s de uma Assembleia Geral, em homenagem ao I Encontro Feminista L\u00e9sbico da Regi\u00e3o, realizado no M\u00e9xico, em 13 de outubro de 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consagrado como <em>witch day\/dia das bruxas<\/em>, o dia 13 de outubro tamb\u00e9m representa o dia seguinte da chegada dos colonizadores \u00e0s terras ind\u00edgenas, segundo Angelina Mar\u00edn, ativista l\u00e9sbica feminista do coletivo Moiras, em seu discurso na Pra\u00e7a das Armas, em Santiago, no Chile, reunida com feministas l\u00e9sbicas na marcha de consagra\u00e7\u00e3o das Rebeldias L\u00e9sbicas [<a href=\"https:\/\/raceandequality.org\/421\">2<\/a>]. Assim, a data convoca coletivas l\u00e9sbicas feministas em todo continente para que se re\u00fanam e celebrem exist\u00eancias l\u00e9sbicas atrav\u00e9s da arte e da cultura como ato de rebeldia contra as opress\u00f5es impostas pelo sistema patriarcalista que oprime as exist\u00eancias que desafiam a cis-heteronormatividade compuls\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para homenagear essas corpas de mulheres que teimam e resistem ao apagamento de suas identidades e de suas express\u00f5es pol\u00edticas libert\u00e1rias, o Instituto sobre Ra\u00e7a, Igualdade e Direitos Humanos (Ra\u00e7a e Igualdade) convidou mulheres l\u00e9sbicas do Brasil e da Col\u00f4mbia para compartilharem suas vozes, olhares e experi\u00eancias sobre o significado e desafios das Rebeldias L\u00e9sbicas em seus pa\u00edses. Conhe\u00e7a suas hist\u00f3rias rebeldes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Col\u00f4mbia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Mar\u00eda V\u00e9lez, ativista do Caribe Afirmativo,<em> \u201ceste 13 de outubro \u00e9 o dia para lembrar e agradecer pela luta das irm\u00e3s l\u00e9sbicas mais velhas que come\u00e7ou h\u00e1 v\u00e1rios anos. Da nomea\u00e7\u00e3o ao auto reconhecimento e da conviv\u00eancia com a parceira. Esses foram os primeiros passos para que hoje possamos desfrutar de algumas a\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao reconhecimento de direitos \u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mar\u00eda chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que as rebeldias l\u00e9sbicas implicam desafios, principalmente em um pa\u00eds como a Col\u00f4mbia marcado pelo conflito armado. \u00a0Adversidades que fazem com que as mulheres l\u00e9sbicas vivenciem constantemente situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia privada, deslocamento for\u00e7ado, estupro coletivo e gravidez for\u00e7ada. A ativista enfatiza que por ser um pa\u00eds multicultural e multi\u00e9tnico, em todas essas identidades ind\u00edgenas e\/ou negras, um racismo e machismo estruturais est\u00e3o embutidos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cPortanto, sendo LGBT ind\u00edgenas ou afro-LGBTI, sofremos opress\u00e3o dentro de nossas comunidades e viol\u00eancia particular em cada territ\u00f3rio. Quando voc\u00ea \u00e9 l\u00e9sbica e afrodescendente, a viol\u00eancia tem tinturas particulares relacionadas \u00e0 exotiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 sexualiza\u00e7\u00e3o de nossos corpos como mulheres negras, porque a sociedade considera que se voc\u00ea \u00e9 uma mulher negra deve ser heterossexual, do contr\u00e1rio n\u00e3o nos conv\u00e9m\u201d<\/em>, desabafa.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sami Arazabaleta, ativista da ONG Somos Identidad, ressalta a import\u00e2ncia de as mulheres l\u00e9sbicas reconhecerem a si mesmas, como seres sexuais que admiram seus corpos longe da norma h\u00e9tero-patriarcal e machista. <em>\u201cAs rebeldias l\u00e9sbicas s\u00e3o o grito necess\u00e1rio para tornar as l\u00e9sbicas vis\u00edveis, nos recusamos a continuar a ser as invis\u00edveis da \u201chomossexualidade\u201d normativa global. J\u00e1 aprendemos que o que n\u00e3o tem nome n\u00e3o existe. A rebeli\u00e3o l\u00e9sbica \u00e9 ser e estar, amar uma mulher cara a cara\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, as rebeldias l\u00e9sbicas tamb\u00e9m s\u00e3o um ato de rep\u00fadio ao bin\u00e1rio, pois as feministas l\u00e9sbicas denunciam que o modo bin\u00e1rio de ver e estar no mundo confinam as l\u00e9sbicas como uma diferen\u00e7a sexual do padr\u00e3o masculino vigente. Como um ato de liberdade, as l\u00e9sbicas rebeldes proclamam que seus corpos existem por si, numa rela\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia e (co)exist\u00eancia com a natureza e, por isso, n\u00e3o s\u00e3o oposi\u00e7\u00e3o de um Outro dominante. Desse modo, Sami traduz sua rebeldia em poesia: <em>\u201co amor l\u00e9sbico \u00e9 sublime, pois permite que as mulheres sejam amadas e reconhecidas sem a necessidade da aprova\u00e7\u00e3o masculina. Sou l\u00e9sbica, porque me amo e amo uma mulher!&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Brasil<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cineasta Naira \u00c9vine, ativista do coletivo Levante Negro, reflete que a afirma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia l\u00e9sbica dentro do audiovisual j\u00e1 \u00e9 um ato de rebeldia. <em>\u201cPorque a gente est\u00e1 indo contra todo sistema heterossexual e cis-heteronormativo que faz quest\u00e3o de apagar nossas exist\u00eancias. Faz quest\u00e3o de que a nossa mem\u00f3ria n\u00e3o seja passada de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o, de que nossas hist\u00f3rias n\u00e3o sejam contadas, que nossas perspectivas n\u00e3o sejam comentadas e filmadas. Ent\u00e3o, quando uma mulher l\u00e9sbica e cineasta e, no meu caso, negra, faz quest\u00e3o que todos esses demarcadores sejam colocados em pauta e tamb\u00e9m sejam falados e respeitados, acho que essa mulher est\u00e1 sendo rebelde\u201d<\/em>, avalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2019, Naira lan\u00e7ou o curta metragem \u201cO dia em que resolvi voar\u201d [<a href=\"https:\/\/raceandequality.org\/421\">3<\/a>], trazendo o protagonismo de hist\u00f3rias l\u00e9sbicas. Assim, ela refor\u00e7a que filmes realizados por mulheres l\u00e9sbicas, que falam sobre viv\u00eancias l\u00e9sbicas e que t\u00eam uma perspectiva de uma mulher l\u00e9sbica racializada ou n\u00e3o, e latino-americana, j\u00e1 \u00e9 uma rebeldia grande. Com isso, a cineasta recorda que as l\u00e9sbicas s\u00e3o diversas e que merecem respeito, uma vida digna, saud\u00e1vel e bem vivida em todo escopo dos direitos b\u00e1sicos que uma vida precisa ter. Por isso, elas resistem quando fazem quest\u00e3o de que suas exist\u00eancias sejam compreendidas e respeitadas.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAcho que n\u00e3o existe uma forma de ser l\u00e9sbica, uma forma de demonstrar a sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. Muitas vezes o arm\u00e1rio \u00e9 um lugar de prote\u00e7\u00e3o, \u00e9 um lugar de defesa da pr\u00f3pria vida e estar dentro do arm\u00e1rio nem sempre quer dizer que \u00e9 covardia. \u00c0s vezes \u00e9 muita coragem tamb\u00e9m n\u00e3o falar sobre isso. Existem casos e casos. N\u00e3o existe somente uma forma de sonhar com uma sociedade mais igualit\u00e1ria. Essa sociedade seria exatamente a exist\u00eancia de diversas lesbianidades, bissexualidades, homossexualidades, diversas viv\u00eancias de grupos sociais. N\u00f3s estamos cercadas de rebeldes l\u00e9sbicas! Que bom que existe esse dia! Que a gente comemore e fale mais sobre essas bravas mulheres!\u201d, comemora.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Camila Carmo, professora, pesquisadora, escritora e ativista do coletivo LesbiBahia, ao pensar no que seria uma rebeldia l\u00e9sbica no pa\u00eds como o Brasil, elabora a constru\u00e7\u00e3o de um projeto pol\u00edtico que seja emancipat\u00f3rio para todas as mulheres e que desafie o sistema heterossexual no qual todas est\u00e3o inseridas. Como uma mulher preta e l\u00e9sbica, ela entende que <em>\u201cser uma mulher l\u00e9sbica nesse Brasil \u00e9 lidar com o racismo, machismo e o sexismo de cada dia, mas tamb\u00e9m me colocar em movimentos de (re)exist\u00eancias para constru\u00e7\u00e3o de outros modos de exist\u00eancias\u201d<\/em> [4].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante dos desafios que implicam rebeldias l\u00e9sbicas, Camila aponta para o enfrentamento do racismo, da pobreza, do feminic\u00eddio, dentro dos fen\u00f4menos estruturais e sist\u00eamicos em um territ\u00f3rio marcado por ditadura e invas\u00f5es colonialistas. <em>\u201cPenso que esse desafio tem a ver com destituir os ataques aos ind\u00edgenas, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o humana, animal e da natureza. Essa reflex\u00e3o atravessa e define a todos n\u00f3s, ainda que eu diga \u201ceu\u201d. Porque ao dizer \u201ceu\u201d tamb\u00e9m estou falando n\u00f3s. N\u00e3o acredito que as alian\u00e7as sejam poss\u00edveis fora de uma coletividade. E por isso, nosso grande desafio hoje \u00e9 pensar em como agir coletivamente, respeitando a diferen\u00e7a e as individualidades\u201d<\/em>, analisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir das hist\u00f3rias dessas inspiradoras l\u00e9sbicas rebeldes, Ra\u00e7a e Igualdade apoia essa rebeldia que vem de encontro ao fortalecimento dos la\u00e7os afetivos entre mulheres e natureza, entre direitos humanos e a desobedi\u00eancia como ruptura das perman\u00eancias do colonialismo. Assim, refor\u00e7amos nosso comprometimento em visibilizar as pautas e as vozes que representam a Am\u00e9rica Latina, em alian\u00e7a com ativistas e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil na den\u00fancia das viola\u00e7\u00f5es fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade democr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, Ra\u00e7a e Igualdade recomenda aos Estados da regi\u00e3o que:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>Empreenda todos os esfor\u00e7os necess\u00e1rios para o combate \u00e0 lesbofobia na cultura da Am\u00e9rica Latina, fomentando a\u00e7\u00f5es que promovam o respeito \u00e0 diversidade sexual e combatam o preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>Opere para o combate \u00e0 lesbofobia no ambiente educacional, inibindo iniciativas que visem a proibi\u00e7\u00e3o de debates sobre ra\u00e7a, g\u00eanero e sexualidade nas escolas e universidades;<\/li>\n<li>Ratifique a Conven\u00e7\u00e3o Interamericana Contra o Racismo, a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial e Formas Correlatas de Intoler\u00e2ncia e a Conven\u00e7\u00e3o Interamericana Contra Toda Forma de Discrimina\u00e7\u00e3o e Intoler\u00e2ncia.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] e [2] <a href=\"https:\/\/raceandequality.org\/421\">http:\/\/feministautonoma.blogspot.com\/2007\/10\/13-de-octubre-da-de-rebeldas-lesbianas.html<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3] <a href=\"https:\/\/raceandequality.org\/422\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=FYjs54EfwxY&amp;t=26s&amp;ab_channel=Naira%C3%89vine<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[4] Sobre o conceito de (re)exist\u00eancias, Camila faz refer\u00eancia a Professora Ana L\u00facia da Silva Souza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cL\u00e9sbicas contra a guerra! 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