{"id":13369,"date":"2021-01-08T18:08:26","date_gmt":"2021-01-08T18:08:26","guid":{"rendered":"http:\/\/race01.wp\/resources\/mes-da-visibilidade-trans-uma-conversa-sobre-transmaculinidades-com-kaio-lemos-e-leonardo-pecanha\/"},"modified":"2023-08-04T18:05:39","modified_gmt":"2023-08-04T18:05:39","slug":"mes-da-visibilidade-trans-uma-conversa-sobre-transmaculinidades-com-kaio-lemos-e-leonardo-pecanha","status":"publish","type":"resources","link":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/resources\/mes-da-visibilidade-trans-uma-conversa-sobre-transmaculinidades-com-kaio-lemos-e-leonardo-pecanha\/","title":{"rendered":"M\u00eas da Visibilidade Trans: uma conversa sobre transmaculinidades com Kaio Lemos e Leonardo Pe\u00e7anha"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em janeiro comemora-se o<strong> M\u00eas da Visibilidade Trans no Brasil<\/strong>, tendo o dia 29 de janeiro como a data oficial de celebra\u00e7\u00e3o do Dia Nacional da Visibilidade Trans. Esse dia vem marcar uma agenda de compromissos e de respeito pela visibiliza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia e dos direitos da popula\u00e7\u00e3o trans no pa\u00eds. A data \u00e9 celebrada desde 2004, quando transexuais e travestis organizaram um ato nacional e, pela primeira vez, ocuparam o congresso brasileiro para o lan\u00e7amento da campanha \u201cTravesti e Respeito\u201d, tornando-se um marco na luta por dignidade, cidadania e visibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo em vista a luta da popula\u00e7\u00e3o LGBTI pela igualdade de direitos e pela n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o de seus corpos e identidades, o Instituto Internacional sobre Ra\u00e7a, Igualdade e Direitos Humanos (Ra\u00e7a e Igualdade) reconhece as formas distintas de viol\u00eancia que atravessam a experi\u00eancia de vida LGBTI, sendo a popula\u00e7\u00e3o trans em situa\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade. Infelizmente, mesmo diante da pandemia de COVID19, a transfobia se agravou e segundo a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), somente em 2020, 175 pessoas trans foram assassinadas no Brasil [1]. Um quadro nada promissor para um pa\u00eds que pelo 12\u00ba ano consecutivo ocupa o quadro de mais violento para pessoas trans no mundo. [2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, para falar de viv\u00eancias trans e visibiliz\u00e1-las em primeira pessoa, nesse caso, especificamente, as experi\u00eancias sobre transmasculinidades, convidamos os ativistas e lideran\u00e7as Kaio Lemos e Leonardo Pe\u00e7anha para uma conversa que al\u00e9m nos propor uma reflex\u00e3o necess\u00e1ria sobre a a\u00e7\u00e3o do machismo e da cisgeneridade sobre pessoas transmasculinas, tamb\u00e9m aponta os caminhos para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova posi\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica para homens trans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kaio Lemos \u00e9 antrop\u00f3logo e coordenador nacional do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT). Leonardo Pe\u00e7anha \u00e9 professor e pesquisador especialista em g\u00eanero e sexualidade, membro do F\u00f3rum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (FONATRANS) e do Projeto Luto do Homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desafios das Transmasculinidades e Sa\u00fade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Kaio Lemos a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas de promo\u00e7\u00e3o de direitos e combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o produz a exclus\u00e3o nos espa\u00e7os sociais, principalmente no ambiente educacional. Lemos concorda que houve avan\u00e7os como autoriza\u00e7\u00e3o do uso do nome social, mas questiona se essa aceita\u00e7\u00e3o vai somente nas chamadas em sala de aula. \u201cA falta de acolhimento e respeito no ambiente educacional \u00e9 um dos motivos que levam muitas pessoas trans a largar os estudos. As transmasculinidades no Brasil ainda vivenciam um cen\u00e1rio de invisibiliza\u00e7\u00e3o, silenciamento, bloqueios e n\u00e3o pertencimentos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leonardo Pe\u00e7anha faz um chamado \u00e0 visibiliza\u00e7\u00e3o da identidade transmasculina brasileira e acredita que o desafio est\u00e1 em tornar vis\u00edvel essa identidade pol\u00edtica org\u00e2nica que, em rela\u00e7\u00e3o aos demais movimentos sociais, nasceu h\u00e1 pouco tempo e vem se estruturando. Al\u00e9m disso, as quest\u00f5es relacionadas \u00e0 sa\u00fade, acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e empregabilidade precisam ser pautadas. \u201cAs quest\u00f5es relacionadas a sa\u00fade transmasculina s\u00e3o um desafio porque os profissionais de sa\u00fade t\u00eam um certo tipo de preconceito e de restri\u00e7\u00f5es em nos atender. Pelo fato da sa\u00fade ser bin\u00e1ria e de separar os corpos de maneira biofisiol\u00f3gica, muitos de n\u00f3s acabamos n\u00e3o acessando a ginecologia de uma maneira adequada e com humanidade por conta da transfobia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao acesso \u00e0 sa\u00fade, Pe\u00e7anha faz um adendo ao respeito e entendimento das especificidades da gesta\u00e7\u00e3o paterna. Ele refor\u00e7a que \u00e9 preciso entender que homens trans podem engravidar e que precisam de atendimento ginecol\u00f3gico pr\u00e9-natal de forma humanizada. \u201cEssa possibilidade n\u00e3o faz com que homens trans sejam inferiores a outros homens ou n\u00e3o sejam homens. Eles continuam sendo homens por isso, mesmo gestando, engravidando e parindo. Essa possibilidade \u00e9 uma possibilidade do corpo, logo, ser homem trans possibilita isso\u201d, elucida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Machismo Estrutural e a Constru\u00e7\u00e3o das Identidades Transmasculinas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de suas reflex\u00f5es, Kaio Lemos questiona o que \u00e9 ser um transmasculine e o que eles \u2013 homens trans e transmasculines \u2013 podem dizer sobre suas identidades e corpos diante do patriarcado, machismo e falocentrismo. Nesse sentido, Lemos pondera que \u00e9 preciso considerar a constru\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia dentro da l\u00f3gica patriarcal que faz com que os transmasculines\/homens trans sejam criados como meninas e sociabilizados como mulheres. Portanto, a viol\u00eancia do cis-tema (cis = cisg\u00eanero) acarreta uma vida de luta, sofrimento e total estranhamento. \u201cIsso tudo me faz pensar que o famoso homem viril, fruto do patriarcado, vive em um arm\u00e1rio onde, geograficamente, tem seus \u00f3rg\u00e3os genitais protegendo-o e sinalizando que s\u00e3o \u2018homens\u2019\u201d, desabafa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto homem negro e trans, Leonardo Pe\u00e7anha aponta para a necessidade de se olhar para a pluralidade das masculinidades, afirmando que todos os homens s\u00e3o diversos entre si e que nem todos v\u00e3o dialogar com as masculinidades de forma igual. \u201cA minha opini\u00e3o \u00e9 que a quest\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em ser homem. Ser homem n\u00e3o significa ser opressor violento, mas sim o que esse homem faz da sua masculinidade, at\u00e9 porque isso \u00e9 o que esperam, por exemplo, de homens negros por conta do racismo. \u00c9 importante que a gente entenda que os homens s\u00e3o diversos e que hoje tamb\u00e9m est\u00e3o conversando entre si e isso precisa ser lido como algo positivo. O di\u00e1logo \u00e9 importante para que se possa desnaturalizar viol\u00eancias que muitas vezes s\u00e3o esperadas. Como por exemplo, no caso de homens trans, muitas vezes \u00e9 esperado que n\u00f3s absorv\u00eassemos toda uma masculinidade t\u00f3xica por conta de uma leitura social lida como normativa. E na verdade \u00e9 apenas uma leitura, nela n\u00e3o fica evidente nossa subjetividade. Quando a gente n\u00e3o reproduz essas viol\u00eancias que s\u00e3o esperadas de forma racista e transf\u00f3bica, \u00e9 tamb\u00e9m uma maneira de n\u00e3o as naturalizar. A ideia \u00e9 entender que os homens tamb\u00e9m s\u00e3o diferentes entre si e que falar, problematizar, estudar sobre transmasculinidades tamb\u00e9m est\u00e1 dentro da quest\u00e3o de g\u00eanero\u201d, conclui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Processo de Transi\u00e7\u00e3o e Orgulho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kaio Lemos prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre os processos de modifica\u00e7\u00f5es corporais de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero como hormoniza\u00e7\u00e3o e cirurgias como se a identidade trans s\u00f3 pudesse ser compreendida a partir desses protocolos tecnol\u00f3gicos e questiona, \u201ccomo ficam nossas trajet\u00f3rias e tr\u00e2nsitos anteriores?\u201d. Desse modo, para Lemos, as diversas pr\u00e1ticas e experi\u00eancias de vida distanciadas desses protocolos est\u00e1 lhe libertando para compreender pr\u00e1ticas e experi\u00eancias discursivas de pessoas trans que n\u00e3o almejam vivenciar estas tecnologias de g\u00eanero. \u201cE tudo me faz tamb\u00e9m sentir orgulho de uma masculinidade positiva que estou construindo, distante e desconstru\u00edda do modelo t\u00f3xico padr\u00e3o colonizador ocidental\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o conceito de transi\u00e7\u00e3o, Leonardo Pe\u00e7anha afirma: \u201cEu n\u00e3o costumo usar o termo transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero porque eu n\u00e3o transicionei de um lugar para outro, eu apenas adequei a mim a uma ideia n\u00e3o cisg\u00eanera de corporeidade ou de expectativa de ser humano, mas adequei a mim o que me deixa mais confort\u00e1vel. Por isso, eu costumo dizer adequa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, e o processo \u00e9 eu entender que eu continuo a ser a mesma pessoa independentemente da minha leitura social. Eu n\u00e3o mudei, por isso a ideia de n\u00e3o ser transi\u00e7\u00e3o. Eu continuo sendo eu, o que aconteceu foi que eu adequei meu corpo a maneira mais confort\u00e1vel para mim, pois a minha identifica\u00e7\u00e3o sempre foi de homem trans\u201d. Quanto ao orgulho, Pe\u00e7anha reconhece que o fato de um dia ter experienciado de alguma forma a leitura de mulher foi importante para que n\u00e3o naturalizasse certas viol\u00eancias e para que tivesse empatia com todas as mulheres, algo que, segundo ele, s\u00f3 homens trans podem vivenciar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, em homenagem ao M\u00eas da Visibilidade Trans, Ra\u00e7a e Igualdade se une \u00e0 vozes e escutas antes silenciadas na luta pelos direitos das pessoas trans e pelo reconhecimento, respeito e inclus\u00e3o de todes na sociedade. Desse modo, fazemos as seguintes recomenda\u00e7\u00f5es ao Estado brasileiro:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 \u2013 Que se adotem medidas e capacita\u00e7\u00e3o de profissionais de sa\u00fade assegurando um tratamento igualit\u00e1rio e humanizado, tendo em vista as especificidades das pessoas transmasculinas;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 \u2013 Remodela\u00e7\u00e3o da estrutura curricular nacional para que os programas escolares visem uma educa\u00e7\u00e3o plural e antirracista com respeito a diversidade sexual e de g\u00eanero e com projetos que visem educa\u00e7\u00e3o sexual nas escolas;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 \u2013 Que o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) empreenda campanhas espec\u00edficas contra a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBTI, a fim de garantir crit\u00e9rios justos de sele\u00e7\u00e3o, promo\u00e7\u00e3o, sal\u00e1rio e condi\u00e7\u00f5es de trabalho, por meio de estrat\u00e9gias institucionais coordenadas para a promo\u00e7\u00e3o dos direitos dessa popula\u00e7\u00e3o no ambiente de trabalho. [3]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] <a href=\"https:\/\/raceandequality.org\/1052\">https:\/\/www.instagram.com\/p\/CJrtmOBnnho\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2] <a href=\"https:\/\/raceandequality.org\/1053\">https:\/\/exame.com\/brasil\/pelo-12o-ano-consecutivo-brasil-e-pais-que-mais-mata-transexuais-no-mundo\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3] <a href=\"https:\/\/raceandequality.org\/536\">http:\/\/oldrace.wp\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FINAL_dossie-lgbti-brasil-ebook.pdf<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em janeiro comemora-se o M\u00eas da Visibilidade Trans no Brasil, tendo o dia 29 de janeiro como a data oficial de celebra\u00e7\u00e3o do Dia Nacional da Visibilidade Trans. 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