{"id":13621,"date":"2021-06-11T16:44:19","date_gmt":"2021-06-11T16:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/race01.wp\/resources\/transcinema-presenca-e-representatividade-trans-no-audiovisual-brasileiro\/"},"modified":"2023-08-04T18:15:24","modified_gmt":"2023-08-04T18:15:24","slug":"transcinema-presenca-e-representatividade-trans-no-audiovisual-brasileiro","status":"publish","type":"resources","link":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/resources\/transcinema-presenca-e-representatividade-trans-no-audiovisual-brasileiro\/","title":{"rendered":"Transcinema: presen\u00e7a e representatividade trans no audiovisual brasileiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Brasil, 11 de junho de 2021 &#8211; <\/strong>\u201cEu nunca imaginei viver num pa\u00eds que mais mata travestis e transexuais. Eu nunca imaginei o qu\u00e3o potente pode ser a refer\u00eancia da minha popula\u00e7\u00e3o, atuando dentro e fora das telas. No teatro, produzindo m\u00fasica dentro e fora das r\u00e1dios, dan\u00e7ando e naturalizando a presen\u00e7a do nosso corpo trans no Brasil\u201d. Com essa alus\u00e3o \u00e0 pot\u00eancia dos corpos trans e a realidade brasileira, <strong>Wescla Vasconcelos \u2013 diretora, roteirista e apresentadora<\/strong> \u2013 abre o programa <em>\u201cTranscinema: presen\u00e7a e representatividade trans no audiovisual brasileiro\u201d<\/em> [1]. Realizado com recursos da lei Aldir Blanc, do Governo do Estado do Rio de Janeiro e da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Governo Federal, o programa tamb\u00e9m contou com o apoio da rede de cinemas Kinoplex. Escrito em parceria com Biancka Fernandes, o <em>Transcinema<\/em> surgiu com intuito de visibilizar e debater a presen\u00e7a dos corpos trans no audiovisual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a participa\u00e7\u00e3o de atrizes como <strong>Divina Aloma, Biancka Fernandes e Rebecca Gotto<\/strong>, que narram suas trajet\u00f3rias art\u00edsticas de corpos desobedientes aos g\u00eaneros e padr\u00f5es midi\u00e1ticos vigentes, todas exaltam a pot\u00eancia disruptiva de suas trangeneridades para o audiovisual brasileiro. Atrav\u00e9s dos breves relatos de suas hist\u00f3rias, muitas v\u00eam de longa caminhada nessa ind\u00fastria, as atrizes narram a evolu\u00e7\u00e3o da representatividade trans al\u00e9m dos estigmas e preconceitos, mostrando que sim, pessoas trans podem e devem ser protagonistas da pr\u00f3pria hist\u00f3ria. A conquista por espa\u00e7os de representatividade no setor cultural \u00e9 uma luta de longa caminhada para a popula\u00e7\u00e3o trans, geralmente suas atua\u00e7\u00f5es s\u00e3o restritas a papeis coadjuvantes ou suas hist\u00f3rias s\u00e3o engavetadas, seja na frente ou atr\u00e1s as c\u00e2meras e\/ou em projetos culturais. Al\u00e9m disso, por conta da transfobia, muitos homens cisg\u00eaneros atuam em papeis de pessoas trans, acentuando ainda mais o apagamento e marginaliza\u00e7\u00e3o das mulheres trans e travestis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale lembrar que a profus\u00e3o das m\u00eddias sociais e a maior facilidade ao acesso \u00e0 Internet \u00e9 e foi importante para a visibiliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o trans, assim como as pautas identit\u00e1rias contribu\u00edram para cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fados audiovisuais que debatam a import\u00e2ncia da representatividade trans nos espa\u00e7os de decis\u00e3o de poder. E como comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 poder, o simb\u00f3lico constru\u00eddo sobre as pessoas trans precisa constantemente ser questionado, uma vez que os meios de comunica\u00e7\u00e3o legitimam e romantizam as narrativas cisheteronormativas, levando a popula\u00e7\u00e3o trans numa eterna disputa pela representatividade al\u00e9m das manchetes sobre viol\u00eancia e morte. Portanto, a representatividade trans tamb\u00e9m precisa ser contemplada no mercado audiovisual na gera\u00e7\u00e3o de empregos e como meio de inser\u00e7\u00e3o social muito al\u00e9m das telas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para contar sobre o projeto <em>\u2018Transcinema\u2019<\/em>, Ra\u00e7a e Igualdade convidou Wescla Vasconcelos, que al\u00e9m de idealizadora do programa, \u00e9 atriz, pedagoga, mestranda em Cultura e Territorialidades pela Universidade Federal Fluminense (UFF), assessora Parlamentar no gabinete da <strong>vereadora<\/strong> <strong>Tain\u00e1 de Paula<\/strong>, no Rio de Janeiro, e tamb\u00e9m atua como articuladora do <strong>F\u00f3rum TT-RJ<\/strong>. Wescla tamb\u00e9m fala sobre a import\u00e2ncia dos relatos das atrizes convidadas para o reconhecimento de pessoas trans como refer\u00eancia de si mesmas e como essa evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ra\u00e7a e Igualdade &#8211; Como surgiu a ideia do programa <em>\u2018Transcinema\u2019<\/em>? Ser\u00e3o quantas edi\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Wescla Vasconcelos &#8211; <\/strong>O <em>\u2018Transcinema\u2019<\/em> surgiu de um sonho que sempre tive como artista, que \u00e9 tentar produzir um conte\u00fado que pudesse refletir, de diversas formas, a pot\u00eancia da presen\u00e7a das pessoas trans e travestis no audiovisual, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s de outras linguagens art\u00edsticas. Em 2020, colaborei na constru\u00e7\u00e3o de uma programa\u00e7\u00e3o para <strong>Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA)<\/strong>, com o primeiro festival <em>\u201cTravestilizando\u201d<\/em>. Esse festival teve como objetivo reunir v\u00e1rias artistas trans de forma a inser\u00ed-las nas redes sociais para mostrar seus talentos na \u00e9poca da pandemia. Inclusive, a gente fez v\u00e1rias campanhas virtuais arrecadando fundos para ajudar com alimentos e produtos de higiene b\u00e1sica, diversas artistas trans pelo Brasil. Ainda no meio da pandemia veio o recurso emergencial da lei Aldir Blanc, e eu, como artista, transexual e cearense, percebi a import\u00e2ncia de produzir um conte\u00fado que refletisse a pot\u00eancia da representatividade trans no audiovisual. Assim, junto com a Biancka Fernandes, somos duas artistas trans nordestinas, come\u00e7amos esse movimento de escrever um projeto baseado nessa quest\u00e3o da representatividade trans no audiovisual brasileiro. Foi a primeira ideia de roteiro que escrevemos juntas, como tamb\u00e9m foi a primeira produ\u00e7\u00e3o que dirigi e ao mesmo tempo produzi, junto a outras pessoas envolvidas. Foi assim que surgiu, da quarentena e da necessidade de produzir conte\u00fado que refletisse a pot\u00eancia da representatividade trans no audiovisual. At\u00e9 o momento o <em>\u2018Transcinema\u2019<\/em> teve essa \u00fanica edi\u00e7\u00e3o, mas para segundo semestre de 2021, pretendo desenvolver outros conte\u00fados nessa linha que contemple pessoas trans no audiovisual brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R&amp;I &#8211; Como roteirista e diretora, quais foram as suas influ\u00eancias e quest\u00f5es para debater essa quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>WV <\/strong>&#8211; As principais influ\u00eancias para a constru\u00e7\u00e3o do roteiro e dire\u00e7\u00e3o do programa se baseiam em algumas entrevistas de artistas trans, tanto do Brasil como de outros pa\u00edses. O programa foi baseado, primeiramente, no document\u00e1rio chamado <em>\u2018Disclosure\u2019<\/em> que em portugu\u00eas se chama <em>\u2018Revela\u00e7\u00e3o\u2019<\/em>, dispon\u00edvel na Netflix. Al\u00e9m desse document\u00e1rio, tive tamb\u00e9m inspira\u00e7\u00e3o no artigo escrito pela <strong>Bruna Benevides<\/strong> chamado <em>\u201911 filmes sobre ativistas trans que voc\u00ea precisa conhecer\u2019 <\/em>[2]. O artigo foi escrito no site Medium e est\u00e1 dispon\u00edvel nas redes. \u00c9 maravilhoso, me inspirou muito a construir o roteiro do programa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R&amp;I \u2013 Como foi a experi\u00eancia de trazer o relato das atrizes trans e qual a mensagem do \u2018Transcinema\u2019 para o p\u00fablico em geral? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>WV <\/strong>&#8211; O programa foi uma experi\u00eancia de reunir v\u00e1rias artistas trans de cidades diferentes, tanto a <strong>Divina Loma<\/strong> falando um pouco da \u00e9poca de Madame Sat\u00e3, no Rio de Janeiro, e o que ela passou como artista transexual negra nessa \u00e9poca. Depois veio a <strong>Rebecca Gotto<\/strong> que \u00e9 uma atriz da Baixada Fluminense, pautando a quest\u00e3o do acesso, das oportunidades e da luta pelo respeito ao nome social, especialmente como artista. Teve a <strong>Biancka Fernandes<\/strong> pautando um pouco do universo da prostitui\u00e7\u00e3o, da marginaliza\u00e7\u00e3o das ruas, da poesia, dos saraus, e a import\u00e2ncia da poesia como pot\u00eancia da sua arte. <em>Foi uma experi\u00eancia de conversa entre gera\u00e7\u00f5es humanizando o debate de entretenimento, de cinema, de produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, pautando o nosso povo trans e travestis como refer\u00eancia de n\u00f3s mesmas. Acho que essa \u00e9 a principal mensagem que o programa \u2018Transcinema\u2019 traz no combate ao preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R&amp;I &#8211; Pela sua experi\u00eancia como militante e como articuladora do F\u00f3rum TT-RJ, como o \u2018<em>Transcinema\u2019<\/em> pode contribuir para a reparar a transfobia num pa\u00eds que mais mata pessoas LGBTI+ no mundo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>WV &#8211; <\/strong>Eu percebo que o programa <em>\u2018Transcinema\u2019<\/em> contribui diretamente com debates que s\u00e3o urgentes na nossa sociedade. A gente v\u00ea muito na televis\u00e3o e na grande m\u00eddia, sempre ligando debate de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o a mortes e assassinatos, marginalizando esses sujeitos transexuais e travestis. Pensando a partir desse lugar de movimento social, a experi\u00eancia na constru\u00e7\u00e3o do <em>\u2018Transcinema\u2019<\/em> foi no sentido de falar de vida. N\u00e3o podemos, n\u00f3s pessoas transexuais, reduzir nossas falas e presen\u00e7a na sociedade s\u00f3 debatendo a quest\u00e3o da transfobia, do preconceito e da discrimina\u00e7\u00e3o. Temos que debater isso tudo e lutar pelo direito a vida dentro desse pa\u00eds que tanto assassina nossos corpos trans e travestis.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por outro lado, \u00e9 importante reconhecer o que cada uma de n\u00f3s faz em vida, porque t\u00eam muitas coisas potentes e inspiradoras que servem de refer\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 para pessoas trans, mas para o conjunto da sociedade e da popula\u00e7\u00e3o LGBTI+ como um todo. O conte\u00fado do \u2018Transcinema\u2019 contribui para dizer que sempre estivemos em diversos lugares, ocupando diversos espa\u00e7os da sociedade. O que a sociedade faz \u00e9 n\u00e3o admitir nossa presen\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R&amp;I &#8211; Como voc\u00ea enxerga a caminhada da presen\u00e7a trans no audiovisual brasileiro at\u00e9 os dias de hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>WV <\/strong>&#8211; No final do programa \u2018Transcinema\u2019 eu trago muito uma mensagem que \u00e9 a de \u2018nos deixem atuar, nos deixem cantar, nos deixem dan\u00e7ar, nos deixem jogar todo e qualquer esporte\u2019. A sociedade n\u00e3o pode mais se furtar ao debate sobre os corpos trans, travestis, mercado de trabalho, estudos e oportunidades e universidade, porque n\u00f3s somos seres humanos e estamos inclu\u00eddos na sociedade de qualquer forma. Ent\u00e3o a gente precisa fomentar para que essa inclus\u00e3o aconte\u00e7a de forma mais pr\u00e1tica e concreta, por isso eu acho que o audiovisual brasileiro at\u00e9 os dias de hoje vem passando por modifica\u00e7\u00f5es que eu tamb\u00e9m fico surpresa. O audiovisual brasileiro vem passando por momentos de transforma\u00e7\u00f5es que poderiam ter acontecido antes, mas n\u00e3o aconteceram, est\u00e3o acontecendo nos dias de hoje e refletem um futuro que vai ser de disputa de narrativas, de corpos, de conte\u00fados sobre representatividade. A quest\u00e3o do programa \u2018Transcinema\u2019, pensando essa evolu\u00e7\u00e3o do audiovisual brasileiro, est\u00e1 muito ligada <em>a n\u00f3s mesmas, artistas transexuais falando de outras de n\u00f3s que passaram pelo entretenimento em \u00e9pocas passadas, comentando seus pr\u00f3prios trabalhos no sentido de referenci\u00e1-las e exalt\u00e1-las<\/em>, e ao mesmo tempo deixando mensagens que, por exemplo, eu quando era crian\u00e7a ou adolescente nunca tinha visto um conte\u00fado como esse. Ent\u00e3o, eu acho que <em>crian\u00e7as e adolescentes transexuais terem acesso a conte\u00fado como \u2018Transcinema\u2019 vai fomentar a ideia de que podem se ver refletidas na TV, no cinema, na arte e em v\u00e1rios outros lugares da sociedade por outras de si mesmas, outras transexuais e travestis. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R&amp;I &#8211; Outra infeliz estat\u00edstica brasileira e que traz a presen\u00e7a trans e travesti no audiovisual \u00e9 de que o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais consome pornografia trans e travesti no mundo, mas o tabu sobre os corpos trans permanecem. Como voc\u00ea enxerga essa poss\u00edvel quebra de paradigma dentro do audiovisual?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>WV &#8211; <\/strong>A estat\u00edstica \u00e9 um dado triste, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata pessoas trans e travestis n\u00e3o por fatalidade, eu gosto muito de frisar isso, pois s\u00e3o crimes de \u00f3dio com muita brutalidade e bizarrice. Ao mesmo tempo que a gente pensa essa triste estat\u00edstica, vemos que o consumo de pornografia \u00e9 muito grande. E al\u00e9m das plataformas digitais, pornografia online, o consumo dos corpos das trans e travestis \u00e9 muito alto tamb\u00e9m. As esquinas de prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o pararam totalmente nesse per\u00edodo de pandemia e, agora com esse movimento da vacina\u00e7\u00e3o das pessoas, o mercado da prostitui\u00e7\u00e3o volta a se acelerar de certa forma. S\u00e3o quest\u00f5es da sociedade que nunca estiveram t\u00e3o presentes como est\u00e3o nos dias de hoje. Precisamos fortalecer esse debate passando por esses fatos de que \u00e9 o pa\u00eds que mais mata e que mais consome conte\u00fado pornogr\u00e1fico trans e que contrata servi\u00e7os de prostitui\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tabus que precisam ser debatidos e, al\u00e9m disso, \u00e9 preciso pensar alternativas para que isso possa ser algo que n\u00e3o prejudique os direitos e dignidade e a vida dessa comunidade LGBTI+.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O audiovisual pode desmistificar, no sentido que a busca por pornografia e prostitui\u00e7\u00e3o nas ruas movimenta certas pessoas em busca de quest\u00f5es espec\u00edficas, que nesse caso \u00e9 o sexo. E por outro lado, produzir conte\u00fado com pessoas trans no audiovisual, sejam eles os mais diversos poss\u00edveis, ajuda a humanizar com que esses corpos n\u00e3o s\u00e3o corpos destinados somente para conte\u00fados pornogr\u00e1ficos e de prostitui\u00e7\u00e3o. Os corpos trans tamb\u00e9m podem ser refer\u00eancias em diversos debates de conte\u00fado audiovisual, e a naturaliza\u00e7\u00e3o dessa presen\u00e7a na sociedade acaba por desmistificar todo esse tabu. A participa\u00e7\u00e3o das pessoas trans no audiovisual brasileiro pode ajudar a diminuir tanto a discrimina\u00e7\u00e3o quanto o preconceito. <\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R&amp;I &#8211; A popular Madame Sat\u00e3 traz uma figura simb\u00f3lica que teve sempre que fixar seu papel de forte e que enfrenta a todes para poder sobreviver e o cinema perpetuou essa imagem. Qual imagem de pessoas trans precisamos (re)construir para emergir um simb\u00f3lico descolonizado sobre os corpos trans?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>WV <\/strong>&#8211; Madame Sat\u00e3 \u00e9 referenciada no nosso programa, a pr\u00f3pria Divina Aloma \u00e9 uma das poucas artistas trans que tiveram contato com Madame Sat\u00e3. Infelizmente, recentemente tivemos o falecimento da <strong>Rog\u00e9ria e da Jane di Castro das Divinas Divas<\/strong>, ent\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o da Aloma no programa \u2018Transcinema\u2019 \u00e9 um presente muito grande. \u00c9 uma heran\u00e7a em vida, ao vivo, comentando sobre Madame Sat\u00e3, \u00e9 um dos momentos marcantes do nosso document\u00e1rio. Por outro lado, temos tamb\u00e9m a partir de Madame Sat\u00e3, aquele corpo art\u00edstico e visual de enfrentamento ao fascismo e ao preconceito, um corpo trans vulnerabilizado principalmente por ser um corpo trans e negro. E ao mesmo tempo pautando a quest\u00e3o da viol\u00eancia policial, do abuso, que essas institui\u00e7\u00f5es de aparelhos ideol\u00f3gicos do Estado, como a pol\u00edcia e v\u00e1rios outros, tem recriminado e discriminado corpos na nossa sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Continua\u00e7\u00e3o WV:<\/strong> Para pensar numa reconstru\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos e de lutas que possam descolonizar os corpos trans \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o s\u00f3 ter pessoas trans atuando, mas pensar como o debate LGBTI+ e o debate trans s\u00e3o estruturantes na sociedade. <em>Al\u00e9m de atuar nos diversos meios de cinema e de arte, acho importante tamb\u00e9m estarmos por dentro desses processos. \u00c9 preciso cada vez mais que tenhamos roteiristas, montadoras, produtoras de conte\u00fado, diretoras criativas trans. Estarmos dentro da estrutura e do funcionamento dessas grandes \u00e1reas da sociedade.<\/em> Porque a partir do momento que a gente fizer isso, vamos ver n\u00e3o s\u00f3 pessoas trans atuando, mas dirigindo, produzindo, roteirizando e fazendo com que tudo isso funcione com a presen\u00e7a desses corpos e talentos profissionais trans e travestis. Isso tudo vai contribuir para naturalizar e decolonizar a experi\u00eancia dos corpos trans na sociedade. A partir do momento que a gente ainda v\u00ea que h\u00e1 uma grande aus\u00eancia da presen\u00e7a das pessoas trans em v\u00e1rios setores da nossa sociedade, \u00e9 importante pensar que quando esse acesso for facilitado, essas pessoas v\u00e3o estar cada vez mais naturalizando suas presen\u00e7as na sociedade e, com isso, de certa forma, enfraquecendo o preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo a contribuir com a fomenta\u00e7\u00e3o do setor cultural como reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o da express\u00e3o popular, Ra\u00e7a e Igualdade reconhece que o direito \u00e0 cultura \u00e9 essencial para a contribui\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de um povo e suas tradi\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura a partir de uma perspectiva plural est\u00e1 interseccionalmente conectada a luta pelos direitos b\u00e1sicos dos povos. Assim, nosso engajamento na defesa e promo\u00e7\u00e3o das pautas LGBTI+, raciais e ind\u00edgenas visam modificar a estrutura de um mundo pensado para corpos e pessoas \u00fanicas. Portanto, reconhecer que a diversidade \u00e9 um direito fundamental e parabenizamos as produ\u00e7\u00f5es culturais diversas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] Assista o Programa Transcinema aqui: <a href=\"https:\/\/raceandequality.org\/516\">https:\/\/www.instagram.com\/p\/CPJZ6HfDEaR\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2] <a href=\"https:\/\/raceandequality.org\/517\">https:\/\/brunabenevidex.medium.com\/11-filmes-sobre-ativistas-trans-que-voc%C3%AA-precisa-conhecer-a2eb9654b4ee<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brasil, 11 de junho de 2021 &#8211; \u201cEu nunca imaginei viver num pa\u00eds que mais mata travestis e transexuais. 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