{"id":17845,"date":"2023-11-20T14:19:08","date_gmt":"2023-11-20T14:19:08","guid":{"rendered":"https:\/\/raceandequality.org\/?post_type=resources&#038;p=17845"},"modified":"2023-11-29T14:23:06","modified_gmt":"2023-11-29T14:23:06","slug":"memoria-trans-a-colonialidade-e-a-resistencia-trans","status":"publish","type":"resources","link":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/resources\/memoria-trans-a-colonialidade-e-a-resistencia-trans\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria Trans: a Colonialidade e a Resist\u00eancia Trans"},"content":{"rendered":"<p><strong>Washington D.C., 20 de novembro de 2023 \u2013<\/strong> Hoje, no Dia da Mem\u00f3ria Trans, \u00e9 importante refletir sobre a mem\u00f3ria de pessoas trans e de g\u00eanero diverso, seus processos de constru\u00e7\u00e3o e a luta para recuperarem suas hist\u00f3rias e as mem\u00f3rias que foram apagadas pelas rela\u00e7\u00f5es de colonialidade. Por isso, o Instituto sobre Ra\u00e7a, Igualdade e Direitos Humanos (Ra\u00e7a e Igualdade) se une \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o dessa data perguntando \u00e0 v\u00e1rias pessoas trans e de g\u00eanero diverso na Am\u00e9rica Latina, sobre o que a colonialidade representa na mem\u00f3ria trans e como podem resgatar suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>O Especialista Independente das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Victor Madrigal-Borloz, apresentou recentemente o \u00faltimo relat\u00f3rio de seu mandato focado na colonialidade como uma das causas profundas da viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o com base na orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00eanero (<a href=\"https:\/\/documents-dds-ny.un.org\/doc\/UNDOC\/GEN\/N23\/218\/50\/PDF\/N2321850.pdf?OpenElement\">A\/78\/227<\/a>), e como isso levou \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria estigmatizada e bin\u00e1ria das popula\u00e7\u00f5es trans na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria latino-americana est\u00e1 repleta de exemplos de como a regi\u00e3o sempre resgata suas mem\u00f3rias e busca novas formas de faz\u00ea-las. Nos \u00faltimos anos, as pessoas trans e LGBTI+ em geral, tamb\u00e9m t\u00eam lutado para recuperar, ressignificar e relembrar sua hist\u00f3ria. Ainda mais, ap\u00f3s as consequ\u00eancias de conflitos armados e ditaduras que levaram ao apagamento de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos contra a popula\u00e7\u00e3o LGBTI+. No entanto, cumprir essa tarefa de recuperar a mem\u00f3ria nos remete ao in\u00edcio dos processos violentos que arrebataram as identidades de muitos povos durante a ocupa\u00e7\u00e3o colonizadora.<\/p>\n<p>Como indica o relat\u00f3rio, a coloniza\u00e7\u00e3o foi um processo de imposi\u00e7\u00e3o de sistemas de diferencia\u00e7\u00e3o, hierarquia e domina\u00e7\u00e3o por uma pot\u00eancia colonizadora sobre os povos ind\u00edgenas. Al\u00e9m disso, sugere que, ap\u00f3s o processo de descoloniza\u00e7\u00e3o, se manteve uma esp\u00e9cie de continua\u00e7\u00e3o do projeto colonial que segue discriminando e violando as pessoas trans. Vale destacar que antes da coloniza\u00e7\u00e3o muitos povos n\u00e3o utilizavam uma abordagem bin\u00e1ria de g\u00eanero ou correlacionavam anatomia com identidade de g\u00eanero, j\u00e1 que as hierarquias sociais n\u00e3o dependiam de g\u00eanero. Em certas aldeias, por exemplo, as pessoas eram fluidas de g\u00eanero e alternavam pap\u00e9is masculinos e femininos, havia in\u00fameros comportamentos sexuais e fluidez de express\u00e3o de g\u00eanero, variando de relacionamentos homossexuais \u00e0s identidades transg\u00eanero e travestimentos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia do processo colonial que propagou padr\u00f5es bin\u00e1rios r\u00edgidos, a viol\u00eancia baseada na identidade de g\u00eanero ainda assola a regi\u00e3o. Hoje, vemos n\u00fameros alarmantes do Observat\u00f3rio de Pessoas Trans Assassinadas (TMM) do TGEU, que indica que entre 1\u00ba de outubro de 2022 e 30 de setembro de 2023, houve 320 assassinatos em todo o mundo, dos quais 235 ocorreram na Am\u00e9rica Latina e no Caribe<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Bicky Boh\u00f3rquez, a partir de sua experi\u00eancia como mulher trans negra e ativista da Funda\u00e7\u00e3o Afrodescendente para as Diversidades Sociais e Sexuais \u2013 <em>Somos Identidad<\/em>, menciona que a imposi\u00e7\u00e3o da religiosidade cisheteronormativa \u00e9 uma das manifesta\u00e7\u00f5es da colonialidade que se mant\u00eam at\u00e9 hoje na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>\u201cA convers\u00e3o religiosa, a imposi\u00e7\u00e3o de um binarismo r\u00edgido de g\u00eanero aos povos colonizados e a criminaliza\u00e7\u00e3o da diversidade sexual e de g\u00eanero foram estrat\u00e9gias de controle da opress\u00e3o colonial&#8221;, como aponta o relat\u00f3rio em conson\u00e2ncia com as palavras de Athiany Larios, feminista trans e ativista de direitos humanos da Nicar\u00e1gua: &#8220;A colonialidade ainda \u00e9 t\u00e3o v\u00e1lida quanto era no in\u00edcio. Muitos dos chamados especialistas e psic\u00f3logos desqualificam nossos sentimentos e nos rotulam como loucos aberrantes com ideias obscuras e quase demon\u00edacas. Fomos educadas e ensinadas sob um esquema patriarcal, mis\u00f3gino e machista sobre o que \u00e9 ser um homem e uma mulher&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p>No caso do Peru, embora o artesanato das culturas Mochica e Chimu j\u00e1 representasse comportamentos sexuais e afetivos homossexuais como parte de suas vidas cotidianas, hoje as rela\u00e7\u00f5es de pessoas do mesmo sexo s\u00e3o discriminadas. &#8220;Lesbobitransfobia, racismo, machismo e classismo s\u00e3o o legado colonial que o Peru continua carregando hoje. Limitado economicamente a ser um mero exportador de recursos b\u00e1sicos como uma col\u00f4nia, uma elite crioula que controla a economia, uma mil\u00edcia abertamente violenta e um legislativo criado para discriminar as diversidades sexuais, os povos nativos, qualquer um que n\u00e3o entre no status quo da sociedade colonial ocidental&#8221;, diz Alex Bauer, membro da Fraternidade Trans Masculina.<\/p>\n<p>Algo revelador que \u00e9 parte das repercuss\u00f5es da colonialidade \u2013 como aponta o relat\u00f3rio do Especialista Independente \u2013 s\u00e3o as siglas LGBTI, que n\u00e3o conseguem captar totalmente a diversidade de sexualidades e g\u00eaneros vivida por pessoas de diversidade sexual. Al\u00e9m disso, leis semelhantes \u00e0s usadas pelas pot\u00eancias colonizadoras para impor normas bin\u00e1rias de g\u00eanero permanecem em vigor em alguns pa\u00edses.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o somos nada, censuram-nos sempre e quando vamos procurar emprego dizem-nos que n\u00e3o h\u00e1, e se nos aceitam temos de estar vestidos como dizem que Deus nos trouxe ao mundo. Pessoalmente, n\u00e3o concordo com as leis e as coisas que acontecem neste pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas trans.\u00a0 N\u00f3s, como outras pessoas, somos seres humanos, pensamos, temos sonhos e queremos ser ouvidos&#8221;, disse Carlos Hern\u00e1ndez, cubano trans que coordena o projeto social e independente <em>\u2018Por siempre Trans\u2019<\/em>.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a Ra\u00e7a e Igualdade faz as seguintes recomenda\u00e7\u00f5es aos Estados para que respeitem e garantam os direitos de todas as pessoas trans:<\/p>\n<ul>\n<li>Adotar as leis e pol\u00edticas necess\u00e1rias para modificar o nome e o g\u00eanero dos documentos oficiais de identifica\u00e7\u00e3o, a fim de garantir o reconhecimento, o respeito e a inclus\u00e3o de pessoas trans e de g\u00eanero diverso, de acordo com as normas do Parecer Consultivo 24\/17.<\/li>\n<li>Coletar sistematicamente dados sobre atos de viol\u00eancia e assassinatos contra pessoas trans e de g\u00eanero diverso, desagregadas por identidade de g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual, identidade \u00e9tnico-racial e idade.<\/li>\n<li>Ter uma pol\u00edtica p\u00fablica com enfoque de g\u00eanero nas investiga\u00e7\u00f5es de viol\u00eancias e assassinatos contra pessoas trans e de g\u00eanero diverso, respeito ao nome social e identidade da pessoa, bem como o estabelecimento de garantias de n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Monitorar e sancionar publicamente discursos transf\u00f3bicos reproduzidos em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas e na m\u00eddia que incorrem em apelos \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o trans e de g\u00eanero diverso.<\/li>\n<li>Promover, por meio de institui\u00e7\u00f5es e canais oficiais, uma campanha para educar e sensibilizar sobre orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00eanero entre a popula\u00e7\u00e3o em geral, agentes p\u00fablicos e servidores p\u00fablicos, com vistas a gerar um contexto de reconhecimento e respeito \u00e0 integridade e \u00e0 vida de pessoas trans e de g\u00eanero diverso.<\/li>\n<\/ul>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> ONU (2023). Informado <a href=\"https:\/\/documents-dds-ny.un.org\/doc\/UNDOC\/GEN\/N23\/218\/50\/PDF\/N2321850.pdf?OpenElement\">A\/78\/227<\/a>. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/documents-dds-ny.un.org\/doc\/UNDOC\/GEN\/N23\/218\/50\/pdf\/N2321850.pdf?OpenElement\">https:\/\/documents-dds-ny.un.org\/doc\/UNDOC\/GEN\/N23\/218\/50\/pdf\/N2321850.pdf?OpenElement<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Transgender Europe (TGEU) Observat\u00f3rio de Pessoas Trans Assassinadas (TMM) 2023. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/transrespect.org\/es\/trans-murder-monitoring-2023\/\">https:\/\/transrespect.org\/es\/trans-murder-monitoring-2023\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington D.C., 20 de novembro de 2023 \u2013 Hoje, no Dia da Mem\u00f3ria Trans, \u00e9 importante refletir sobre a mem\u00f3ria de pessoas trans e de g\u00eanero diverso, seus processos de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":17798,"parent":0,"menu_order":0,"template":"","format":"standard","categories":[],"resources_country":[],"resources_language":[],"resources_audience":[],"resources_format":[],"resources_topic":[1103,1116],"resources_year":[],"class_list":["post-17845","resources","type-resources","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","resources_topic-lgbti-pt-br","resources_topic-pessoas-trans"],"acf":[],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources\/17845","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources"}],"about":[{"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/resources"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17798"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17845"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17845"},{"taxonomy":"resources_country","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_country?post=17845"},{"taxonomy":"resources_language","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_language?post=17845"},{"taxonomy":"resources_audience","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_audience?post=17845"},{"taxonomy":"resources_format","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_format?post=17845"},{"taxonomy":"resources_topic","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_topic?post=17845"},{"taxonomy":"resources_year","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_year?post=17845"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}