{"id":19950,"date":"2025-07-03T19:43:14","date_gmt":"2025-07-03T19:43:14","guid":{"rendered":"https:\/\/raceandequality.org\/?post_type=resources&#038;p=19950"},"modified":"2025-07-03T19:43:14","modified_gmt":"2025-07-03T19:43:14","slug":"a-onu-alerta-sobre-a-persistencia-do-racismo-sistemico-no-brasil-mesmo-com-avancos-institucionais","status":"publish","type":"resources","link":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/resources\/a-onu-alerta-sobre-a-persistencia-do-racismo-sistemico-no-brasil-mesmo-com-avancos-institucionais\/","title":{"rendered":"A ONU alerta sobre a persist\u00eancia do racismo sist\u00eamico no Brasil mesmo com avan\u00e7os institucionais"},"content":{"rendered":"<p><strong>Rio de Janeiro, 3 de julho de 2025.<\/strong>&#8211; A Relatora Especial das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Formas Contempor\u00e2neas de Racismo, Discrimina\u00e7\u00e3o Racial, Xenofobia e Intoler\u00e2ncia Correlata, Ashwini K.P., apresentou o <a href=\"https:\/\/docs.un.org\/en\/A\/HRC\/59\/62\/Add.1\"><strong>relat\u00f3rio oficial de sua visita ao Brasil<\/strong><\/a>, no qual reconhece o progresso institucional do pa\u00eds no combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o racial, mas alerta para a persist\u00eancia do racismo sist\u00eamico que continua a afetar desproporcionalmente comunidades racializadas e etnicamente marginalizadas.<\/p>\n<p>Durante sua miss\u00e3o oficial, realizada de <strong>5 a 16 de agosto de 2024<\/strong>, a especialista visitou as cidades de Bras\u00edlia, Salvador, S\u00e3o Lu\u00eds, S\u00e3o Paulo, Florian\u00f3polis e Rio de Janeiro, onde se reuniu com representantes dos governos federal e estadual, do sistema de justi\u00e7a, da sociedade civil e de organiza\u00e7\u00f5es internacionais. Ela tamb\u00e9m ouviu depoimentos de mais de 120 representantes de grupos afrodescendentes, ind\u00edgenas, quilombolas, ciganos e outros historicamente exclu\u00eddos.<\/p>\n<p><strong>Reconhecimento institucional do racismo<\/strong><\/p>\n<p>A Relatora Especial saudou a decis\u00e3o do Governo brasileiro de reconhecer o racismo enquanto fen\u00f4meno estrutural, distanciando-se da no\u00e7\u00e3o de &#8220;democracia racial&#8221;. Ela destacou avan\u00e7os importantes como a cria\u00e7\u00e3o do <strong>Minist\u00e9rio da Igualdade Racial (MIR)<\/strong> e do <strong>Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas (MPI)<\/strong> em 2023, bem como os esfor\u00e7os para fortalecer o monitoramento das recomenda\u00e7\u00f5es internacionais por meio do Sistema de Acompanhamento de Recomenda\u00e7\u00f5es (SIMORE).<\/p>\n<p>No entanto, ela enfatizou que <strong>a discrimina\u00e7\u00e3o racial continua a se manifestar de forma interseccional e generalizada<\/strong> em diversas esferas, afetando severamente os direitos civis, pol\u00edticos, econ\u00f4micos, sociais, culturais e ambientais de pessoas de ascend\u00eancia africana, ind\u00edgenas, quilombolas, romani e outros grupos historicamente exclu\u00eddos.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia e desapropria\u00e7\u00e3o territorial<\/strong><\/p>\n<p>O relat\u00f3rio destaca com particular preocupa\u00e7\u00e3o a viol\u00eancia estrutural enfrentada por povos ind\u00edgenas e quilombolas na defesa de seus territ\u00f3rios. Exemplos como os <strong>ataques contra o povo Guaran\u00ed-Kaiow\u00e1 no Mato Grosso do Sul e a ocupa\u00e7\u00e3o das terras da comunidade quilombola Alto do Toror\u00f3, na Bahia<\/strong>, ilustram como o racismo sist\u00eamico se expressa na aus\u00eancia de demarca\u00e7\u00e3o de terras, na extra\u00e7\u00e3o ilegal de recursos e na presen\u00e7a de for\u00e7as armadas em territ\u00f3rios ancestrais.<\/p>\n<p><strong>Racismo ambiental<\/strong><\/p>\n<p>A Relatora Especial documentou casos de racismo ambiental, como <strong>a pulveriza\u00e7\u00e3o de pesticidas t\u00f3xicos em comunidades quilombolas no Maranh\u00e3o<\/strong> por atores do agroneg\u00f3cio, gerando consequ\u00eancias devastadoras para a sa\u00fade e o meio ambiente, bem como o enfraquecimento dos meios de subsist\u00eancia tradicionais.<\/p>\n<p>&#8220;Fiquei chocada ao ouvir de atores do sistema judici\u00e1rio estadual que o dever de consultar os povos ind\u00edgenas e as comunidades quilombolas \u2014 e de garantir seu consentimento livre, pr\u00e9vio e informado \u2014 estava sendo delegado \u00e0s mesmas empresas com interesses comerciais em projetos extrativos&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p><strong>Discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e viol\u00eancia contra mulheres racializadas<\/strong><\/p>\n<p>O relat\u00f3rio alerta para a <strong>preval\u00eancia alarmante de feminic\u00eddio e viol\u00eancia dom\u00e9stica<\/strong> no Brasil, que afeta particularmente mulheres afrodescendentes, ind\u00edgenas e quilombolas. Tamb\u00e9m destaca a situa\u00e7\u00e3o de mulheres LGBTI+ racializadas, que enfrentam viol\u00eancia exacerbada por causas interseccionais.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m expressou preocupa\u00e7\u00e3o com os relatos de acesso limitado ou inexistente aos servi\u00e7os b\u00e1sicos de sa\u00fade para a <strong>comunidade l\u00e9sbica, gay, bissexual, trans e intersexo<\/strong>, bem como casos de racismo e fobia contra essa comunidade por profissionais m\u00e9dicos dentro do sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia policial e acesso \u00e0 justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>A especialista denunciou o uso sistem\u00e1tico de for\u00e7a letal por for\u00e7as policiais em comunidades afrodescendentes, especialmente nas favelas. Essas <strong>opera\u00e7\u00f5es militarizadas<\/strong> geram in\u00fameras viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e afetam o cotidiano das pessoas, interrompendo servi\u00e7os essenciais como educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m expressou preocupa\u00e7\u00e3o com a inefic\u00e1cia dos programas federais que protegem os defensores dos direitos humanos, especialmente aqueles que lutam contra o racismo.<\/p>\n<p><strong>Intoler\u00e2ncia religiosa e discurso de \u00f3dio<\/strong><\/p>\n<p>Ashwini K.P. tamb\u00e9m recebeu informa\u00e7\u00f5es alarmantes sobre ataques a l\u00edderes religiosos afro-brasileiros e terreiros, bem como sobre a <strong>viol\u00eancia e a impunidade enfrentadas por praticantes de religi\u00f5es de matriz africana.<\/strong> A Relatora Especial saudou os esfor\u00e7os do Minist\u00e9rio da Igualdade Racial para desenvolver pol\u00edticas espec\u00edficas para combater o racismo religioso.<\/p>\n<p>\u2018\u2019Estou profundamente preocupada com os relatos sobre o alto \u2014 e crescente \u2014 n\u00famero de casos de intoler\u00e2ncia religiosa e discrimina\u00e7\u00e3o, frequentemente chamados no Brasil de &#8216;racismo religioso&#8217;, contra pessoas que praticam religi\u00f5es afro-brasileiras. Esses relatos incluem atos profundamente prejudiciais de racismo cotidiano, como taxistas fechando suas portas para pessoas que usam roupas associadas com as religi\u00f5es afro-brasileiras, al\u00e9m de restri\u00e7\u00f5es ao uso dessas roupas no local de trabalho e <em>bullying<\/em> contra crian\u00e7as que praticam essas religi\u00f5es&#8221;, afirma a especialista no relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao discurso de \u00f3dio, ela alertou sobre o <strong>aumento de casos de incita\u00e7\u00e3o ao racismo<\/strong>, tanto em espa\u00e7os f\u00edsicos quanto online, e destacou o baixo \u00edndice de condena\u00e7\u00f5es, apesar do alto n\u00famero de den\u00fancias.<\/p>\n<p><strong>Recomenda\u00e7\u00f5es principais<\/strong><\/p>\n<p>A Relatora Especial fez 67 recomenda\u00e7\u00f5es ao Estado brasileiro, agrupadas em cada uma das \u00e1reas tem\u00e1ticas observadas e analisadas. Entre as principais recomenda\u00e7\u00f5es, destacamos as seguintes:<\/p>\n<ul>\n<li>Estabelecer uma institui\u00e7\u00e3o nacional de direitos humanos de acordo com os Princ\u00edpios de Paris, com o poder de monitorar e combater a discrimina\u00e7\u00e3o racial.<\/li>\n<li>Implementar integralmente as obriga\u00e7\u00f5es internacionais relativas \u00e0 justi\u00e7a racial, incluindo a Conven\u00e7\u00e3o sobre a Elimina\u00e7\u00e3o de Todas as Formas de Discrimina\u00e7\u00e3o Racial.<\/li>\n<li>Garantir a implementa\u00e7\u00e3o efetiva de planos para desenvolver pol\u00edticas destinadas a combater o racismo religioso.<\/li>\n<li>Rejeitar qualquer interpreta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica regressiva que limite os direitos territoriais dos povos ind\u00edgenas.<\/li>\n<li>Garantir pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas e inclusivas para as comunidades Quilombolas.<\/li>\n<li>Fortalecer os mecanismos de prote\u00e7\u00e3o para defensores dos direitos humanos e garantir financiamento adequado.<\/li>\n<li>Tome medidas urgentes contra o racismo religioso e o discurso de \u00f3dio, online e offline.<\/li>\n<li>Desenvolver campanhas de educa\u00e7\u00e3o e conscientiza\u00e7\u00e3o p\u00fablica para combater estere\u00f3tipos negativos sobre as religi\u00f5es afro-brasileira e isl\u00e2mica e promover a coexist\u00eancia pac\u00edfica e o respeito a todas as religi\u00f5es.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Um chamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O relat\u00f3rio constitui <strong>um apelo urgente ao Estado brasileiro para que avance decisivamente na erradica\u00e7\u00e3o do racismo sist\u00eamico e na consolida\u00e7\u00e3o da igualdade racial<\/strong>. A Relatora Especial demonstra que o progresso institucional deve se traduzir em profundas transforma\u00e7\u00f5es estruturais que garantam justi\u00e7a, repara\u00e7\u00e3o e dignidade a todas as pessoas, especialmente \u00e0quelas historicamente exclu\u00eddas.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio <strong>ser\u00e1 apresentado ao Conselho de Direitos Humanos das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/strong> e servir\u00e1 como ferramenta fundamental para monitorar e garantir a responsabiliza\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es internacionais do Estado brasileiro no combate ao racismo, \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o racial e \u00e0 intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A Relatora Especial reafirmou sua disposi\u00e7\u00e3o de trabalhar com o Estado, a sociedade civil e as comunidades afetadas para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a uma sociedade verdadeiramente igualit\u00e1ria, na qual os direitos humanos de todas as pessoas, independentemente da origem racial ou \u00e9tnica, sejam totalmente respeitados e garantidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 3 de julho de 2025.&#8211; A Relatora Especial das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Formas Contempor\u00e2neas de Racismo, Discrimina\u00e7\u00e3o Racial, Xenofobia e Intoler\u00e2ncia Correlata, Ashwini K.P., apresentou o relat\u00f3rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":19951,"parent":0,"menu_order":0,"template":"","format":"standard","categories":[],"resources_country":[],"resources_language":[],"resources_audience":[],"resources_format":[],"resources_topic":[1092,1101,1112,1114],"resources_year":[],"class_list":["post-19950","resources","type-resources","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","resources_topic-afrodescendentes","resources_topic-aldeias-indigenas","resources_topic-discriminacao-racial","resources_topic-racismo-pt-br"],"acf":[],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources\/19950","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources"}],"about":[{"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/resources"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19951"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19950"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19950"},{"taxonomy":"resources_country","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_country?post=19950"},{"taxonomy":"resources_language","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_language?post=19950"},{"taxonomy":"resources_audience","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_audience?post=19950"},{"taxonomy":"resources_format","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_format?post=19950"},{"taxonomy":"resources_topic","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_topic?post=19950"},{"taxonomy":"resources_year","embeddable":true,"href":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/resources_year?post=19950"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}