{"id":20702,"date":"2026-07-24T22:31:50","date_gmt":"2026-07-24T22:31:50","guid":{"rendered":"https:\/\/raceandequality.org\/?post_type=resources&#038;p=20702"},"modified":"2026-07-24T22:35:19","modified_gmt":"2026-07-24T22:35:19","slug":"editorial-dia-mulher-negra-latino-americana-caribenha-e-da-diaspora-raca-e-igualdade","status":"publish","type":"resources","link":"https:\/\/raceandequality.org\/pt-br\/resources\/editorial-dia-mulher-negra-latino-americana-caribenha-e-da-diaspora-raca-e-igualdade\/","title":{"rendered":"25 de julho: As mulheres afrodescendentes cultivam a vida, protegem suas comunidades e constroem o futuro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Rio de Janeiro, 25 de julho, 2026.<\/strong>&#8211; Em 25 de julho, celebra-se o <strong>Dia Internacional<\/strong> <strong>da Mulher Negra Latino-americana, Caribenha e da Di\u00e1spora<\/strong>. Trata-se de um dia para reconhecer, nomear e visibilizar a for\u00e7a de milh\u00f5es de mulheres negras que, na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, cultivam a vida, protegem seus territ\u00f3rios e constroem, com suas pr\u00f3prias m\u00e3os, alternativas de futuro mais justas.<\/p>\n<p>Essa celebra\u00e7\u00e3o nasce de um contexto de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o profundas. As mulheres afrodescendentes seguem enfrentando a sobreposi\u00e7\u00e3o entre racismo e viol\u00eancia baseada em g\u00eanero, num cen\u00e1rio em que as sociedades da Am\u00e9rica Latina e do Caribe ainda enfrentam desafios estruturais profundos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 equidade de g\u00eanero e ra\u00e7a. \u00c9 uma viol\u00eancia que se manifesta em diferentes esferas: no acesso desigual \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade, ao trabalho digno e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; nas viol\u00eancias f\u00edsicas e simb\u00f3licas que atingem seus corpos \u2014 inclusive viol\u00eancia dom\u00e9stica, feminic\u00eddio, viol\u00eancia sexual, obst\u00e9trica, pol\u00edtica, policial e discursos de \u00f3dio; e nas amea\u00e7as que recaem sobre suas lideran\u00e7as quando decidem defender seus territ\u00f3rios, suas comunidades e seus direitos, al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o remunerada do trabalho de cuidado.<\/p>\n<p>Essas desigualdades s\u00e3o o resultado direto de s\u00e9culos de colonialidade, de exclus\u00e3o racial e de um pacto social que, na maior parte dos pa\u00edses da regi\u00e3o, nunca reconheceu efetivamente as mulheres negras como sujeitas de direitos. Falar do 25 de julho \u00e9, portanto, tamb\u00e9m falar de hist\u00f3ria \u2014 da resist\u00eancia que atravessou o per\u00edodo colonial, a escraviza\u00e7\u00e3o e as d\u00e9cadas de exclus\u00e3o p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o \u2014 e de presente, reconhecendo que essas desigualdades continuam moldando as condi\u00e7\u00f5es de vida de milh\u00f5es de mulheres afrodescendentes hoje. Ra\u00e7a, etnia, g\u00eanero, sexualidade, classe social e territ\u00f3rio s\u00e3o fatores que potencializam significativamente os epis\u00f3dios de viol\u00eancia e o impacto da perda de direitos e do desfinanciamento de pol\u00edticas p\u00fablicas. Nesse sentido, \u00e9 indispens\u00e1vel levar em conta a subalterniza\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o espec\u00edficas \u00e0s quais as mulheres negras foram e s\u00e3o submetidas na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, onde at\u00e9 hoje se perpetuam rela\u00e7\u00f5es de poder colonialistas e imperialistas.<\/p>\n<p><strong>Protagonismo e sustento<\/strong><\/p>\n<p>Ainda assim \u2014 e \u00e9 este o eixo central que este texto pretende afirmar \u2014 as mulheres afrodescendentes n\u00e3o podem ser descritas apenas como v\u00edtimas dessas viol\u00eancias. Elas s\u00e3o, antes de tudo, protagonistas: defensoras de direitos humanos, cuidadoras, lideran\u00e7as comunit\u00e1rias, guardi\u00e3s da mem\u00f3ria coletiva e construtoras cotidianas de sociedades mais justas e democr\u00e1ticas. \u00c9 esse protagonismo que o Instituto Ra\u00e7a e Igualdade quer colocar no centro da conversa neste 25 de julho.<\/p>\n<p>O cuidado \u00e9 um trabalho historicamente invisibilizado e n\u00e3o remunerado, que \u00e9 a base sobre a qual se erguem fam\u00edlias, economias locais e culturas inteiras. Nas casas, nos bairros, nas comunidades rurais e urbanas, s\u00e3o majoritariamente mulheres negras que garantem o cuidado das crian\u00e7as e das pessoas idosas, que alimentam, que curam, que ensinam.<\/p>\n<p>Esse cuidado deve ser compreendido como uma ferramenta pol\u00edtica de cultivo e promo\u00e7\u00e3o da vida coletiva, uma pr\u00e1tica que garante a continuidade das comunidades afrodescendentes diante de contextos adversos. Cuidar, nesse sentido, \u00e9 resistir e \u00e9 tamb\u00e9m construir: \u00e9 a forma mais cotidiana e mais constante de manter vivas as fam\u00edlias, as tradi\u00e7\u00f5es e os la\u00e7os comunit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, mulheres afrodescendentes movimentam economias populares, redes de com\u00e9rcio informal, produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e economia solid\u00e1ria que sustentam bairros inteiros. Elas tamb\u00e9m s\u00e3o protagonistas na ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de poder, na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e na tomada de decis\u00f5es. Muitas vezes s\u00e3o chefes de fam\u00edlia, provedoras principais de seus lares, e carregam essa responsabilidade em meio a m\u00faltiplas jornadas de trabalho precarizado e a uma desigualdade salarial que penaliza duplamente por serem mulheres e por serem negras.<\/p>\n<p><strong>Mem\u00f3ria e defesa<\/strong><\/p>\n<p>E esse cultivo se d\u00e1, ainda, pela cultura: mulheres afrodescendentes transmitem saberes ancestrais e recuperam, reelaboram e atualizam constantemente esses conhecimentos diante dos desafios do presente. Essa transmiss\u00e3o intergeracional de saberes \u00e9, em si mesma, uma forma de resist\u00eancia coletiva: um patrim\u00f4nio que resiste ao apagamento e que se transforma em ferramenta de prote\u00e7\u00e3o e de futuro.<\/p>\n<p>Se cultivar a vida \u00e9 um trabalho cotidiano e invisibilizado, proteger as comunidades \u00e9 um exerc\u00edcio de lideran\u00e7a p\u00fablica. Mulheres afrodescendentes est\u00e3o \u00e0 frente de organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, movimentos de base, coletivos de defesa de direitos humanos e processos de resist\u00eancia territorial em toda a regi\u00e3o. S\u00e3o elas que, muitas vezes na linha de frente, denunciam viola\u00e7\u00f5es, acompanham v\u00edtimas, articulam redes de prote\u00e7\u00e3o e levam suas demandas a espa\u00e7os de incid\u00eancia pol\u00edtica, nacional e internacional.<\/p>\n<p>Essa lideran\u00e7a n\u00e3o vem sem retalia\u00e7\u00f5es do sistema cisheteropatriarcal. As mulheres negras que decidem defender seus territ\u00f3rios \u2014 sejam eles rurais, quilombolas, urbanos ou perif\u00e9ricos \u2014 enfrentam amea\u00e7as, estigmatiza\u00e7\u00e3o e, em muitos pa\u00edses da regi\u00e3o, risco real \u00e0 pr\u00f3pria vida. A viol\u00eancia pol\u00edtica e de g\u00eanero contra lideran\u00e7as afrodescendentes segue sendo uma das express\u00f5es mais graves da desigualdade racial nas Am\u00e9ricas. Ainda assim, essas mulheres seguem de p\u00e9, \u00e0 frente, conduzindo processos de defesa de direitos e de prote\u00e7\u00e3o territorial.<\/p>\n<p>Proteger tamb\u00e9m significa preservar a mem\u00f3ria. Mulheres afrodescendentes s\u00e3o guardi\u00e3s de hist\u00f3rias que o racismo estrutural tentou apagar: mem\u00f3rias de resist\u00eancia, de ancestralidade, de luta coletiva. Nesse sentido, a constru\u00e7\u00e3o da paz nos territ\u00f3rios afrodescendentes passa, necessariamente, pelas m\u00e3os dessas mulheres, que mant\u00eam processos comunit\u00e1rios de conviv\u00eancia, repara\u00e7\u00e3o e cuidado coletivo mesmo em contextos de viol\u00eancia persistente.<\/p>\n<p>Essa prote\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem uma dimens\u00e3o coletiva e organizativa: s\u00e3o as mulheres afrodescendentes que, com frequ\u00eancia, articulam redes de apoio m\u00fatuo entre organiza\u00e7\u00f5es, criam espa\u00e7os seguros para outras mulheres e meninas, e constroem pontes entre suas comunidades e inst\u00e2ncias nacionais e internacionais de prote\u00e7\u00e3o de direitos humanos. \u00c9 um trabalho que exige const\u00e2ncia e estrat\u00e9gia, e que muitas vezes significa um enfrentamento direto com estruturas de poder que preferem silenciar essas vozes.<\/p>\n<p><strong>Futuro<\/strong><\/p>\n<p>O protagonismo das mulheres afrodescendentes se projeta, de forma decidida, sobre o futuro. Essa proje\u00e7\u00e3o acontece, primeiramente, pela educa\u00e7\u00e3o, em especial pelo acesso que buscam e conquistam, rompendo barreiras estruturais de exclus\u00e3o racial e de g\u00eanero. Acontece tamb\u00e9m pela participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: mulheres afrodescendentes ocupam, cada vez com mais for\u00e7a, espa\u00e7os pol\u00edticos \u2014 em parlamentos, em conselhos, em organismos internacionais de direitos humanos, em espa\u00e7os multilaterais \u2014 levando para essas mesas as demandas concretas de suas comunidades. Essa presen\u00e7a, ainda minorit\u00e1ria diante da sub-representa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de mulheres negras nos espa\u00e7os de poder, representa uma transforma\u00e7\u00e3o profunda, fruto de s\u00e9culos de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>E acontece, por fim, pela forma\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es, sobretudo na transmiss\u00e3o de um projeto de futuro. Ao educar, ao organizar, ao ocupar espa\u00e7os de decis\u00e3o, mulheres afrodescendentes ativamente constroem alternativas, novas formas de conviv\u00eancia comunit\u00e1ria, novos modelos de lideran\u00e7a e novos caminhos para que as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es vivam com mais dignidade, mais direitos e menos viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Compromisso<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 justamente nesse ponto de protagonismo das mulheres negras que se situa o trabalho de Ra\u00e7a e Igualdade, institui\u00e7\u00e3o que conta com a contribui\u00e7\u00e3o de diversas mulheres negras que comp\u00f5em nossa equipe e que estruturam estrat\u00e9gias concretas de enfrentamento ao racismo, ao machismo e \u00e0 LGBTQIAPN+fobia. N\u00f3s atuamos ao lado de ativistas e organiza\u00e7\u00f5es de mulheres afrodescendentes em toda a Am\u00e9rica Latina, apoiando a documenta\u00e7\u00e3o e o registro de viola\u00e7\u00f5es e fortalecendo sua capacidade de incid\u00eancia nos espa\u00e7os nacionais e internacionais de decis\u00f5es. Promovemos a participa\u00e7\u00e3o efetiva dessas lideran\u00e7as perante a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos e mantemos comunica\u00e7\u00e3o permanente com a CIDH, al\u00e9m de contribuir com relat\u00f3rios e recomenda\u00e7\u00f5es no F\u00f3rum Permanente sobre Povos Afrodescendentes da ONU e no Mecanismo de Especialistas para Promover a Justi\u00e7a e a Igualdade Racial na Aplica\u00e7\u00e3o da Lei.<\/p>\n<p>Esse trabalho de incid\u00eancia j\u00e1 resultou em relat\u00f3rios que analisam a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de mulheres afrodescendentes no Brasil, no Chile, na Col\u00f4mbia e em Honduras, dando visibilidade tanto \u00e0 viol\u00eancia pol\u00edtica que as atinge \u2014 de forma ainda mais aguda quando s\u00e3o tamb\u00e9m mulheres trans \u2014 quanto \u00e0s estrat\u00e9gias que elas pr\u00f3prias constroem para ocupar espa\u00e7os de poder e de decis\u00e3o. Promovemos, ainda, di\u00e1logos regionais e internacionais que conectam a experi\u00eancia das mulheres afrodescendentes latino-americanas e caribenhas \u00e0s lutas da di\u00e1spora africana em outros contextos, fortalecendo redes de solidariedade e de aprendizado m\u00fatuo entre lideran\u00e7as de diferentes pa\u00edses. Esse \u00e9 o compromisso que Ra\u00e7a e Igualdade reafirma neste 25 de julho: seguir ao lado de organiza\u00e7\u00f5es de mulheres afrodescendentes, fortalecendo suas lutas para transformar a realidade de suas comunidades e sociedades.<\/p>\n<p>Reconhecer e celebrar a ag\u00eancia que as mulheres negras exercem na Am\u00e9rica Latina e no Caribe \u00e9 essencial para, de fato, avan\u00e7ar na igualdade racial e de g\u00eanero. Porque as mulheres afrodescendentes cultivam a vida todos os dias, cuidando de suas fam\u00edlias e de suas comunidades; elas protegem seus territ\u00f3rios, suas lideran\u00e7as e sua mem\u00f3ria coletiva; elas se organizam politicamente e ocupam espa\u00e7os de poder; e elas constroem, com decis\u00e3o e coragem, os caminhos de um futuro mais justo, mais democr\u00e1tico e mais digno para si mesmas, para toda a sociedade e para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 25 de julho, 2026.&#8211; Em 25 de julho, celebra-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana, Caribenha e da Di\u00e1spora. 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