Mês da Visibilidade Trans: uma conversa sobre transmaculinidades com Kaio Lemos e Leonardo Peçanha

Transmasculinidades_KaioeLeonardo

Em janeiro comemora-se o Mês da Visibilidade Trans no Brasil, tendo o dia 29 de janeiro como a data oficial de celebração do Dia Nacional da Visibilidade Trans. Esse dia vem marcar uma agenda de compromissos e de respeito pela visibilização da existência e dos direitos da população trans no país. A data é celebrada desde 2004, quando transexuais e travestis organizaram um ato nacional e, pela primeira vez, ocuparam o congresso brasileiro para o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”, tornando-se um marco na luta por dignidade, cidadania e visibilidade.

Tendo em vista a luta da população LGBTI pela igualdade de direitos e pela não discriminação de seus corpos e identidades, o Instituto Internacional sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos (Raça e Igualdade) reconhece as formas distintas de violência que atravessam a experiência de vida LGBTI, sendo a população trans em situação de maior vulnerabilidade. Infelizmente, mesmo diante da pandemia de COVID19, a transfobia se agravou e segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), somente em 2020, 175 pessoas trans foram assassinadas no Brasil [1]. Um quadro nada promissor para um país que pelo 12º ano consecutivo ocupa o quadro de mais violento para pessoas trans no mundo. [2]

Logo, para falar de vivências trans e visibilizá-las em primeira pessoa, nesse caso, especificamente, as experiências sobre transmasculinidades, convidamos os ativistas e lideranças Kaio Lemos e Leonardo Peçanha para uma conversa que além nos propor uma reflexão necessária sobre a ação do machismo e da cisgeneridade sobre pessoas transmasculinas, também aponta os caminhos para a construção de uma nova posição sócio-política para homens trans.

Kaio Lemos é antropólogo e coordenador nacional do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT). Leonardo Peçanha é professor e pesquisador especialista em gênero e sexualidade, membro do Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (FONATRANS) e do Projeto Luto do Homem.

Desafios das Transmasculinidades e Saúde

Para Kaio Lemos a falta de políticas públicas de promoção de direitos e combate à discriminação produz a exclusão nos espaços sociais, principalmente no ambiente educacional. Lemos concorda que houve avanços como autorização do uso do nome social, mas questiona se essa aceitação vai somente nas chamadas em sala de aula. “A falta de acolhimento e respeito no ambiente educacional é um dos motivos que levam muitas pessoas trans a largar os estudos. As transmasculinidades no Brasil ainda vivenciam um cenário de invisibilização, silenciamento, bloqueios e não pertencimentos”.

Leonardo Peçanha faz um chamado à visibilização da identidade transmasculina brasileira e acredita que o desafio está em tornar visível essa identidade política orgânica que, em relação aos demais movimentos sociais, nasceu há pouco tempo e vem se estruturando. Além disso, as questões relacionadas à saúde, acesso à educação e empregabilidade precisam ser pautadas. “As questões relacionadas a saúde transmasculina são um desafio porque os profissionais de saúde têm um certo tipo de preconceito e de restrições em nos atender. Pelo fato da saúde ser binária e de separar os corpos de maneira biofisiológica, muitos de nós acabamos não acessando a ginecologia de uma maneira adequada e com humanidade por conta da transfobia”.

Em relação ao acesso à saúde, Peçanha faz um adendo ao respeito e entendimento das especificidades da gestação paterna. Ele reforça que é preciso entender que homens trans podem engravidar e que precisam de atendimento ginecológico pré-natal de forma humanizada. “Essa possibilidade não faz com que homens trans sejam inferiores a outros homens ou não sejam homens. Eles continuam sendo homens por isso, mesmo gestando, engravidando e parindo. Essa possibilidade é uma possibilidade do corpo, logo, ser homem trans possibilita isso”, elucida.

Machismo Estrutural e a Construção das Identidades Transmasculinas

A partir de suas reflexões, Kaio Lemos questiona o que é ser um transmasculine e o que eles – homens trans e transmasculines – podem dizer sobre suas identidades e corpos diante do patriarcado, machismo e falocentrismo. Nesse sentido, Lemos pondera que é preciso considerar a construção de família dentro da lógica patriarcal que faz com que os transmasculines/homens trans sejam criados como meninas e sociabilizados como mulheres. Portanto, a violência do cis-tema (cis = cisgênero) acarreta uma vida de luta, sofrimento e total estranhamento. “Isso tudo me faz pensar que o famoso homem viril, fruto do patriarcado, vive em um armário onde, geograficamente, tem seus órgãos genitais protegendo-o e sinalizando que são ‘homens’”, desabafa.

Enquanto homem negro e trans, Leonardo Peçanha aponta para a necessidade de se olhar para a pluralidade das masculinidades, afirmando que todos os homens são diversos entre si e que nem todos vão dialogar com as masculinidades de forma igual. “A minha opinião é que a questão não está em ser homem. Ser homem não significa ser opressor violento, mas sim o que esse homem faz da sua masculinidade, até porque isso é o que esperam, por exemplo, de homens negros por conta do racismo. É importante que a gente entenda que os homens são diversos e que hoje também estão conversando entre si e isso precisa ser lido como algo positivo. O diálogo é importante para que se possa desnaturalizar violências que muitas vezes são esperadas. Como por exemplo, no caso de homens trans, muitas vezes é esperado que nós absorvêssemos toda uma masculinidade tóxica por conta de uma leitura social lida como normativa. E na verdade é apenas uma leitura, nela não fica evidente nossa subjetividade. Quando a gente não reproduz essas violências que são esperadas de forma racista e transfóbica, é também uma maneira de não as naturalizar. A ideia é entender que os homens também são diferentes entre si e que falar, problematizar, estudar sobre transmasculinidades também está dentro da questão de gênero”, conclui.

Processo de Transição e Orgulho

Kaio Lemos propõe uma reflexão sobre os processos de modificações corporais de transição de gênero como hormonização e cirurgias como se a identidade trans só pudesse ser compreendida a partir desses protocolos tecnológicos e questiona, “como ficam nossas trajetórias e trânsitos anteriores?”. Desse modo, para Lemos, as diversas práticas e experiências de vida distanciadas desses protocolos está lhe libertando para compreender práticas e experiências discursivas de pessoas trans que não almejam vivenciar estas tecnologias de gênero. “E tudo me faz também sentir orgulho de uma masculinidade positiva que estou construindo, distante e desconstruída do modelo tóxico padrão colonizador ocidental”.

Sobre o conceito de transição, Leonardo Peçanha afirma: “Eu não costumo usar o termo transição de gênero porque eu não transicionei de um lugar para outro, eu apenas adequei a mim a uma ideia não cisgênera de corporeidade ou de expectativa de ser humano, mas adequei a mim o que me deixa mais confortável. Por isso, eu costumo dizer adequação de gênero, e o processo é eu entender que eu continuo a ser a mesma pessoa independentemente da minha leitura social. Eu não mudei, por isso a ideia de não ser transição. Eu continuo sendo eu, o que aconteceu foi que eu adequei meu corpo a maneira mais confortável para mim, pois a minha identificação sempre foi de homem trans”. Quanto ao orgulho, Peçanha reconhece que o fato de um dia ter experienciado de alguma forma a leitura de mulher foi importante para que não naturalizasse certas violências e para que tivesse empatia com todas as mulheres, algo que, segundo ele, só homens trans podem vivenciar.

Assim, em homenagem ao Mês da Visibilidade Trans, Raça e Igualdade se une à vozes e escutas antes silenciadas na luta pelos direitos das pessoas trans e pelo reconhecimento, respeito e inclusão de todes na sociedade. Desse modo, fazemos as seguintes recomendações ao Estado brasileiro:

1 – Que se adotem medidas e capacitação de profissionais de saúde assegurando um tratamento igualitário e humanizado, tendo em vista as especificidades das pessoas transmasculinas;

2 – Remodelação da estrutura curricular nacional para que os programas escolares visem uma educação plural e antirracista com respeito a diversidade sexual e de gênero e com projetos que visem educação sexual nas escolas;

3 – Que o Ministério Público do Trabalho (MPT) empreenda campanhas específicas contra a discriminação à população LGBTI, a fim de garantir critérios justos de seleção, promoção, salário e condições de trabalho, por meio de estratégias institucionais coordenadas para a promoção dos direitos dessa população no ambiente de trabalho. [3]

 

[1] https://www.instagram.com/p/CJrtmOBnnho/

[2] https://exame.com/brasil/pelo-12o-ano-consecutivo-brasil-e-pais-que-mais-mata-transexuais-no-mundo/

[3] https://raceandequality.org/wp-content/uploads/2020/11/FINAL_dossie-lgbti-brasil-ebook.pdf

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