Orgulho, Solidariedade e Resistência: OSCs LGBTI brasileiras realizam ações solidárias no combate à COVID-19 – PARTE I

Através de artigos e seminários web, o Instituto Raça e Igualdade visa promover um espaço de discussão sobre o avanço do coronavírus no Brasil e seu impacto na população afrodescendente, incluindo a população afro-LGBTI. Com isso, convidamos a todes para a leitura deste artigo que será publicado em duas partes.

“Resistir e (Re)existir!”: verbos que evocam a batalha diária da população LGBTI e que, diante da crise sanitária e social agravada pela pandemia de coronavírus, amplificaram-se em redes de proteção e solidariedade. Por todo o Brasil, Organizações da Sociedade Civil (OSCs) LGBTI ressignificaram a resistência por meio de uma união estratégica de forças e cooperação, que resultaram em uma campanha solidária com doações coletivas de alimentos, produtos de higiene e, até mesmo, roupas e cobertores para o frio a comunidades periféricas e pessoas LGBTI.

Frente à contínua ausência do Estado em relação aos serviços básicos que conferem plena cidadania às populações periféricas, entidades da sociedade civil denunciam que a situação de desamparo se agravou durante a COVID-19. Com isso, diversas OSCs tiveram que tomar a frente em ações de políticas públicas, para garantir que pessoas LGBTI que vivem em situação de vulnerabilidade tivessem, ao menos, condições de sobreviver com dignidade ao período de isolamento social.

Wescla Vasconcelos, articuladora do Fórum de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro (Fórum TT RJ), ressalta que mesmo antes da pandemia as organizações LGBTI já estavam se articulando em prol da união entre as pessoas trans, por meio da mobilização e formação política das lideranças e militantes transexuais e travestis [1] e, diante do coronavírus, essas articulações se fortaleceram através da atuação das instituições, resultando em uma grande campanha de solidariedade.

“Muitas dessas doações foram para tentar diminuir a fome dentro da população trans, pois, vale lembrar, as profissionais do sexo negras são as mais prejudicadas, então, a atuação do Fórum TT RJ foi muito importante, desde o início da pandemia até os dias de hoje, que a gente continua circulando informações, fazendo campanha de doações e também petições públicas para a permanência da Casa Nem, em Copacabana, no prédio ocupado pelos LGBTI”, completa Wescla.

A solidariedade como dinâmica de resistência em tempos de COVID-19 expandiu-se e, com o apoio do Fórum TT RJ entre outras OSCs, diversas lideranças distribuíram cestas básicas em todo Rio de Janeiro. Entre elas, Ísis Rangel (mulher trans) e Thárcilo Ipá (homem trans), em Campos do Goytacazes, região norte fluminense; as lideranças LGBTI de Teresópolis, região serrana, Gatinha Gisele, cabelereira trans negra, e a lésbica Carol Quintana; e Paula Unica, liderança que ficou responsável pela distribuição na Baixada Fluminense, abrangendo Mesquita, Nova Iguaçu, Caxias, entre outros municípios. Em Niterói, o Grupo Diversidade de Niterói distribuiu as cestas pela região.

Para ações dentro de favelas do Rio de Janeiro, a atuação do Grupo Conexão G de Cidadania LGBT em favelas, foi de grande importância na organização da entrega de alimentos nessas comunidades. Gilmara Cunha, diretora-executiva do Grupo Conexão G, explica que a campanha de doações atendia inicialmente o Complexo da Maré, que abrange diversas favelas, mas com a parceria de outras instituições LGBTI foi possível ampliar o atendimento beneficente para outras favelas do Estado. Gilmara enfatiza que, no contexto da COVID-19, o Conexão G entendeu que os corpos da população LGBTI de favela seriam os primeiros a ser ceifados e a não ter mais uma vez os seus direitos.

“Essa ação surgiu a partir de mais uma situação de vulnerabilidade que a nossa população LGBTI de favela vive, deixando-as à margem de toda essa política e sociedade transfóbica que se encontram. Assim, o Conexão G garantiu que essa realidade mudasse e entregamos cerca de 1 mil cestas básicas, desde o início da pandemia e, agora, vamos entregar mais cerca de 300 cestas básicas nas comunidades”, explica a diretora do Conexão G.

Nessas ações, a resistência também é ressignificada através do acolhimento, pois no período de isolamento a invisibilidade de pessoas e famílias LGBTI é acentuada pelas desigualdades sociais e, muitas delas, ainda enfrentam e/ou são submetidas a situações de violência física e psicológica. Sem contar na solidão que agrava muitos quadros de depressão, o que afeta também o estado de saúde. No boletim “Assassinatos contra Travestis e Transexuais em 2020” [2], publicado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), dados apontam que somente no primeiro semestre de 2020, foram mapeados 14 suicídios de pessoas transexuais no Brasil.

Além disso, o boletim ressalta como a situação se torna ainda mais agravante quando se trata da violência física contra corpos transexuais, pois somente no primeiro semestre de 2020 foi possível mapear 89 assassinatos de pessoas trans, o equivalente a um aumento de 39% em relação ao mesmo período do ano passado. Deste modo, o boletim denuncia o descaso do Estado brasileiro que, mesmo antes da pandemia, não implementou medidas protetivas perante a população LGBTI e, assim, as desigualdades só se agravaram neste momento em que se fazem necessárias políticas emergenciais.

Nesse sentido, Gilmara lamenta que, num momento de tantos retrocessos no Brasil, os corpos de pessoas LGBTI são os primeiros a resistir a mais uma situação de vulnerabilidade. “É uma pena que a gente ainda assim tenha que resistir em meio a diversas vulnerabilidades e agora mais essa. São os nossos corpos que estão à frente nesse processo”, frisa.

Se resiliência é a capacidade de se recuperar de situações de crise a aprender com ela, pode-se dizer que as organizações LGBTI já têm do que se orgulhar, diante de toda essa situação gerada pela pandemia. Representando o movimento trans do Rio de Janeiro, Indiana Siqueira, através de reuniões online, mobilizou a construção da REBRACA LGBTIA+, a Rede Brasileira de Casas de Acolhimento LGBTIA+. A rede visa acolher a população LGBTI em vários lugares do Brasil que estão com a vida atingida pelo coronavírus. Essa iniciativa permitiu nacionalizar a rede de solidariedade LGBTI, fortalecendo o movimento, criando uma força política coletiva que aponta que os caminhos para futuras gerações LGBTI podem ser trilhados além da força e que, as histórias de (Re)existências LGBTI, também podem ser contadas através de suas potências.

 

[1] – Longe de ser um termo pejorativo, segundo a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil) “travesti” é uma identidade no país, reivindicada por aqueles que, apesar de terem sido identificados como pertencentes ao gênero masculino ao nascer, se reconhecem como pertencentes ao gênero feminino e têm uma expressão de gênero feminina, mas não se afirmam como mulheres. Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA); Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE). Dossiê dos assassinatos e da violência contra travestis e transexuais brasileiras em 2019. São Paulo: Expressão Popular, ANTRA, IBTE, 2020, p. 11. Disponível em: https://antrabrasil.files.wordpress.com/2020/01/dossic3aa-dos-assassinatos-e-da-violc3aancia-contra-pessoas-trans-em-2019.pdf

[2] – https://antrabrasil.org/assassinatos/

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