Orgulho, Solidariedade e Resistência: OSCs LGBTI brasileiras realizam ações solidárias no combate à COVID-19 – PARTE II

Através de artigos e seminários web, o Instituto Raça e Igualdade visa promover um espaço de discussão sobre o avanço do coronavírus no Brasil e seu impacto na população afrodescendente, incluindo a população afro-LGBTI. Com isso, convidamos a todes para a leitura da segunda parte e final deste artigo sobre a mobilização das redes LGBTI no combate a fome.

Bahia e Manaus: Aquilombamentos Solidários

As práticas negacionistas do atual governo brasileiro face ao surto do coronavírus, fizeram com que essa mobilização ressoasse por todo o país. Independente da região do Brasil, a luta pela visibilidade e representatividade LGBTI é atravessada também pelo direito de existir num mundo sem violência. Frente a esse quadro de exclusão que negligencia corpos não normativos, organizações LGBTI como o Coletivo LesbiaBahia, de Salvador, e a Associação Amazonense de Mulheres Independentes pela Livre Expressão Sexual (Amiles), de Manaus, através de parcerias, conseguiram expandir suas doações para diversas famílias.

Para Barbara Alves, diretora do Coletivo LesbiBahia, a pandemia possibilitou a ampliação do olhar de ativistas e lideranças lésbicas que se uniram em diversas atividades para enfrentar essa nova realidade e tem se tornado uma prática constante entre os coletivos. “Nós vamos nos aquilombar e respeitar tanto as diferenças dentro do coletivo, como dentro do próprio segmento as especificidades de cada uma. Então, essa nova possibilidade de ação política coletiva com esse olhar, com essa expectativa de salvar vidas ela faz a gente inclusive rever as nossas ações antes mesmo da pandemia”, afirma.

A diretora relata que a ação do LesbiBahia foi realizada em parceria com a OSC Bahia Street, que trabalha com crianças e adolescentes e cedeu o espaço para a organização das doações.  Outra parceria fundamental foi com o Fundo ELAS, uma vez que o projeto “Caravana da Saúde” que consistia em rodas de conversa com meninas lésbicas na capital e interior da Bahia e que tinha apoio do ELAS teve que parar por causa da pandemia, o dinheiro do projeto foi revertido para o apoio de lésbicas de Salvador durante a pandemia. Segundo Barbara, desse modo, foi possível atender a maior parte das comunidades de Salvador, como Cajazeiras e Itapagibe, além da região metropolitana abrangendo Lauro de Freitas e Camaçari.

Em Manaus, região norte do país, a Amiles, fundada em 2005 e coordenada por Sebastiana da Silva, trabalha a defesa e a promoção dos direitos humanos da comunidade LGBTI, buscando fortalecendo o segmento lésbico, bisexual e trans. Mesmo antes da COVID-19, a Associação já promovia eventos beneficentes, como feijoadas solidárias para ajudar mulheres lésbicas e bissexuais que passam por doenças graves, como câncer de colo de útero e câncer de mama. E como não poderia ser diferente, a pandemia na região também foi um momento de reinvenção e articulação e, com isso, foi possível desenvolver um trabalho para além da comunidade de Santo Antônio.

Para Sebastiana, a palavra dessa pandemia foi reinvenção. “Então assim, a gente se articulou, nos reinventamos para que pudéssemos levar ao menos algum alento para as pessoas. Foi muito gratificante, porque quando a gente chega na casa das pessoas para entregar o kit, muitas revelam que estão desempregadas ou doentes, sem saber o que fazer. Isso nos gratifica muito porque conseguimos levar a esperança, a renovação da fé e nos solidarizando, sendo resilientes com as nossas manas. A gente sabe que há necessidade de muitas coisas, mas pelo menos um pouquinho a gente levou para elas”, desabafa.

Raça, Classe e Gênero: a interseccionalidade dos perfis beneficiados em todos os Estados

Entre todas as instituições, o critério principal era atender pessoas LGBTI que estão em situação de maior vulnerabilidade durantes essa pandemia. Nesse sentido, a maioria se organizou em fichas cadastrais para que pudessem contemplar, principalmente, as pessoas que se encontram numa situação de extrema pobreza e/ou desempregadas. Deste modo, nas comunidades do Rio de Janeiro, Gilmara Cunha, do Grupo Conexão G, revela que as doações acabaram por beneficiar toda comunidade de favela e não só a população LGBTI. Essa mesma abrangência, pode ser encontrada nos relatos do LesbiBahia, em Salvador, e na Amiles, em Manaus. Todas as lideranças reconhecem que raça, classe, gênero e sexualidade atravessam os perfis cadastrados.

Barbara Alves explica que o critério do LesbiBahia para conceder as doações era que a pessoa não tivesse sido beneficiada em nenhum projeto do governo, o que foi feito através de uma ficha de cadastro na qual puderam conferir o CPF. Assim, foi possível doar em maio, 30 vouchers de 70 reais e, em junho, através de duas ações, doaram mais 30 vouchers do mesmo valor, com os quais as lésbicas puderam ir até uma rede de supermercado da região e fazer as suas compras.

“Como selecionamos as lésbicas que não tiveram documentação aprovada pelo governo, esse nosso critério já intersecciona. São as pessoas que não tem acesso à Internet, não tem celular, são as nossas meninas lésbicas que estão vendendo o corpo, que estariam vendendo cigarro e que estariam nos bares vendendo rosas. Posso dizer que 90% das mulheres eram negras”, conta.

Sebastiana da Silva, da Amiles, conta que com a pandemia foram buscar parceiros e se articularam com a Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc) e a Secretaria Municipal de Assistência Social. Nessa mobilização, conseguiram doações de cestas básicas, kits de hortifruti, kits com máscara e álcool gel e cartão voucher no valor de 50 reais. A Amiles possui 50 famílias cadastradas, dessas 37 são famílias LGBTI que recebem as doações e conta com uma lista de espera de mais de 70 pessoas. Para não deixar ninguém de fora, Sebastiana conta que fazem um rodízio para que ninguém passe necessidade.

“Essa pandemia fez com que a gente fizesse uma grande reflexão e um sentimento de solidariedade, porque a gente percebe que um não vive sem o outro. Fizemos uma força coletiva em prol de todos. Nisso, atendemos até mesmo pessoas da Igreja Universal na nossa associação. Nessa última doação que recebemos de hortifruti, nós tiramos 10 cestas para doar para algumas obreiras, pois não fazemos discriminação de religião e de pessoas, pelo contrário, a gente luta contra isso. Procuramos ajudar toas as pessoas, com foco nas LGBT travestis, lésbicas e transexuais. Na semana que vem, vamos doar 45 cestas básicas para profissionais do sexo LGBTI”, conta Sebastiana.

Wescla Vasconcelos, do Fórum TT RJ, relata que os cadastros foram realizados pelo Grupo TransRevolução e pela Casa Nem, e que no início da pandemia, em março, mais de 500 pessoas se inscreveram para doações e que, agora, conseguiram já conseguiram atingir um número maior. Sem contar com as mais de 60 pessoas que moram na Casa Nem. Ela ressalta que, em junho, foram feitas mais de 1.500 doações.

A articuladora do Fórum TT diz que, ao se mobilizarem, tiveram o apoio da Coordenadoria da Diversidade Sexual, da Prefeitura do Rio de Janeiro, e do Governo do Estado através da Secretaria de Direitos Humanos, com o Thiago Miranda, que proporcionaram a divulgação e o apoio para a campanha de arrecadação de alimentos. Com isso, foi possível toda organização, higienização e a separação dos alimentos na Casa Nem, para que depois despachassem essas doações a diversos territórios na cidade do Rio e alguns municípios do Estado.

“O fato é que esse perfil beneficiado já conhecemos há anos e que na pandemia do coronavírus só se tornou mais gritante a desigualdade social que ataca diretamente pessoas trans negras, algumas em situação de rua, outras profissionais do sexo, outras em situação de viver em um abrigo LGBTI, no caso a Casa Nem. Atendemos também pessoas trans da baixada fluminense, de comunidades, dentro de becos e vielas, das favelas e comunidades do Rio de Janeiro. Também pudemos observar algumas cabeleireiras que também foram afetadas pela pandemia”, conta.

Assim, o Instituto Raça & Igualdade, parabeniza os Organizações da Sociedade Civil LGBTI brasileiras que mesmo diante de várias adversidades, mobilizaram-se para acolher com ações concretas os espaços e corpos marginalizados pela defasada política brasileira. Deste modo, reiteramos os diversos chamados ao Estado Brasileiro para que mapeie e execute políticas públicas que visem atender as especificidades de cada território e de suas comunidades para um dia possamos, enfim, vislumbrar a possibilidade de justiça social nesse país.

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