Deixem de nos matar!: Grupo Conexão G da Favela da Maré

Foto: Paulo Oliveira/ CABINE — CC

Brasil, 12 de setembro de 2019. De 6 a 8 de setembro, o 1º Festival LGBTI de Cultura e Cidadania das Favelas foi realizado na Favela de Maré. No entanto, esse espaço se viu marcado por uma operação policial que durou aproximadamente 20 horas e deixou duas pessoas mortas. É por isso que a comunidade da Maré hoje exige: Parem de nos matar!

Desde o ano 2006, o Grupo Conexão G realiza um importante trabalho dentro do Complexo da Maré. O Complexo da Maré é um conglomerado de 19 favelas, localizado no Rio de Janeiro entre as principais vias de acesso da cidade e próxima ao aeroporto internacional. Em 2010, quando foi realizado o último censo pelo governo federal, a Maré contava com cerca de 130.000 moradores.

A Favela da Maré é uma das favelas mais perigosas do Brasil. Sob o comando de narcotraficantes, a Maré é constantemente um verdadeiro palco de guerra entre facções rivais e também com a polícia. A lógica de guerra é autorizada por um discurso de combate às drogas que, na verdade, criminaliza todo o conjunto da população da favela. Num cenário em que a essa população são sistematicamente negados direitos como à saúde, à educação, ao trabalho, ao lazer, dentre outros, a principal relação que o Estado mantém com essas pessoas é a violência.

Conexão G foi a primeira organização no Brasil que começou a trabalhar direta e exclusivamente com a população LGBTI da favela. Desde o seu surgimento, essa organização tem realizado projetos voltados à segurança pública, empregabilidade, saúde, educação e cultura da população LGBTI negra. A ótica interseccional é uma das características da organização.

Em conversa com Race and Equality, Gilmara Cunha, diretora e fundadora do Conexão G, contou que, quando a organização surgiu, em 2006, as pessoas LGBTI viviam num contexto de grande violência e opressão por parte dos demais moradores da favela – um contexto que persiste até hoje:

“Naquela época, e ainda hoje, a gente vivia muita violência e opressão por parte dos demais moradores. A gente não podia participar de alguns espaços, porque era agredida física e verbalmente. Um dos momentos mais marcantes foi quando estávamos, um grupo de travestis, em um local que tocava samba, quando algumas pessoas começaram a tacar cebolas e pedaços de maneira em nós e tivemos que nos retirar daquele ambiente. A partir dali, a gente pensou: é preciso fazer alguma coisa para transformar essa realidade e transformar a política do movimento LGBT, que era e ainda é um movimento de classe média. A gente surge nesse momento, pensando numa agenda que atendesse e incluísse de fato a população de favela, porque as políticas que são criadas são pensadas para a classe média e essas políticas não nos atingem”, disse.

Como exemplo, Gilmara cita a recente aprovação do crime de homofobia pela Suprema Corte do país, que equiparou a homofobia ao crime de racismo:

“Veja bem: a homofobia foi criminalizada e foi equiparada ao crime de racismo. Se a gente está dentro desse território e faz uma denúncia, a polícia não vai vir até aqui. Se a polícia vier, isso coloca a nossa vida em risco, porque todo mundo se conhece e vai saber quem faz a denúncia”.

De fato, em muitos casos, os moradores das favelas são proibidos pelos traficantes de procurar a polícia quando têm qualquer tipo de problema que possa levar a alguma investigação, porque o tráfico não quer que a polícia esteja presente nas favelas.

I Festival de Cultura e Cidadania LGBTI de Favelas: marcado pela truculência policial

Desde 2010, o Grupo Conexão G realiza todos os anos a Parada LGBTI da Favela da Maré. Nesse ano, além da Parada, o Grupo Conexão G realizou também o I Festival de Cultura e Cidadania LGBTI das Favelas, um evento com apresentações artísticas e de formação política e profissional, pensando arte, cultura, moda, sustentabilidade, política e empreendedorismo. As atividades foram realizadas entre os dias 6 e 8 de setembro, sendo encerradas com a Parada LGBTI.

Contudo, no primeiro dia da realização do evento, ocorreu uma operação policial na Favela da Maré, com o registro de dois habitantes da favela mortos durante a operação, que durou cerca de 20 horas.

Um dos maiores problemas que a Favela da Maré vive nesse momento é o tema das operações policiais. O atual governo do Rio de Janeiro tem adotado uma política de verdadeiro “abate” dentro das favelas, com policiais disparando tiros indiscriminadamente diretamente de helicópteros. Como resultado, de janeiro a junho de 2019, 881 pessoas foram mortas em operações policiais no estado – o maior número registrado nos últimos 17 anos.

A operação policial afetou a programação do evento realizado pelo Conexão G e colocou em perigo as pessoas que foram prestigiar o evento:

“É uma guerra que não é contra as drogas, mas sim contra a população pobre, preta e favelada. Por exemplo: ontem houve 2 pessoas assassinadas, várias casas foram violadas. Isso afetou a nossa programação durante essa semana, principalmente no primeiro dia. Era tiro toda hora. A gente ficou presa no Centro de Artes da Maré e não podia sair. Isso me faz refletir: que Estado é esse que não considera esse espaço como parte da cidade? A sensação não é só de medo, mas também uma sensação de que nada pode ser feito. Mas estamos aí na resistência.”, disse Gilmara.

Mariah Rafaela, do Grupo Conexão G e do Instituto Transformar, que também estava presente no dia, disse:

“Foi péssimo. Quando a gente viu, os policiais estavam entrando na favela abaixados e começamos a escutar o barulho de tiros, o que certamente nos deixou muito preocupadas pela integridade física das pessoas que tinham ido prestigiar o evento. Foi muito tiro. Nesse momento, tivemos que encerrar as atividades, fechamos o portão e ficamos presas lá dentro, esperando que o tiro passasse ou que tivesse uma brecha para sairmos de lá. É muito difícil produzir esse trabalho na Maré, mas seguiremos persistindo. Seguiremos persistindo.”

Por esse motivo, a Parada LGBTI da Favela, realizada no dia 8 de setembro, foi marcada pela denúncia contra a violência policial. Do carro de som, Gilmara Cunha gritava:

“Esse Estado nos mata todos os dias! Parem de nos matar! Estamos aqui reivindicando por vidas! Vivemos estes dias praticamente em plena violência, onde a polícia adentrava nossas casas, assassinaram moradores, e nós não podemos permitir que isso ocorra! Essa cidade não é uma cidade partida! A Maré faz parte dessa cidade! Não podemos aceitar como se isso fosse algo normal! Chega! Pare! Pare de matar nossa população pobre e favelada! Estamos aqui para reivindicar direitos! Estar aqui hoje é um ato de resistência!”

Gilmara Cunha também informou que, diante do cenário político brasileiro, este, ao menos em princípio, foi o último ano da realização da Parada na Favela da Maré: “A princípio é a última parada. Só Deus sabe como vai estar o cenário ano que vem”, disse.

Race and Equality reconhece que as vidas da população LGBTI moradora de favela requerem uma especial atenção e visibilidade e parabeniza ao Grupo Conexão G pela sua atuação corajosa diante do grave contexto de violência que existe nas favelas do Brasil.

Continuaremos trabalhando pela documentação, visibilização e denúncia da situação de direitos humanos da população LGBTI negra e periférica no Brasil e exigimos que o Estado Brasileiro garanta o direito dessa população e garanta, também, a segurança necessária para a atuação do Grupo Conexão G na Favela da Maré.

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