O manifesto coletivo de seis mulheres ativistas da América Latina e do Caribe

As lideranças, provenientes do Brasil, Colômbia, Cuba, México e República Dominicana, reuniram-se pela primeira vez em um encontro virtual onde, sem terem se visto antes, compartilharam suas lutas e expressaram suas principais demandas.

Washington D.C., 6 de março de 2026 – No último 19 de fevereiro, seis mulheres ativistas do Brasil, Colômbia, Cuba, México e República Dominicana reuniram-se em um encontro virtual que, a partir da Raza e Igualdad, chamamos de “Quando as mulheres criam, a memória resiste”. Durante uma hora e trinta minutos compartilharam quem são, de onde lutam e quais realidades atravessam seus territórios. Desse intercâmbio nasceu um manifesto coletivo que hoje ganha um sentido especial no marco do 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Participaram desse espaço Eva Rafaela Calça, da Rede Trans Assis de São Paulo, Brasil; Andrea Ceballos, da Organização Indígena do Território Pasto, na Colômbia; María Camila Zúñiga, do Movimento de Mulheres Unidas, Diversas e Emancipadas (MUDE), também da Colômbia; Lourdes Esquivel, integrante da organização Damas de Branco de Cuba; Daniela Islas, do coletivo Afrocaracolas do México; e Estefany Feliz Pérez, do movimento de jovens Reconoci.Do da República Dominicana. Para muitas delas, foi a primeira vez que compartilharam um espaço comum entre lutas tão diversas, mas atravessadas por uma mesma urgência: a dignidade.

O exercício culminou com a escrita de um manifesto que reúne sua voz coletiva e suas principais demandas:

Nós, mulheres da América Latina e do Caribe, nos unimos em um grito poderoso para exigir igualdade e justiça. O amor e a força é o que nos sustenta nesta luta diária.

Desde o ontem e o hoje reconhecemos a força e a determinação da nossa história. Somos motor. Somos tesouros do mundo.

Lutamos para nos sentirmos seguras e em igualdade, sendo reconhecidas e tratadas com dignidade, a partir de uma perspectiva antirracista e decolonial.

Hoje e sempre exigimos respeito e liberdade em todos os espaços!

Esse chamado não surge no vazio. A América Latina e o Caribe continuam marcados por uma violência estrutural contra as mulheres. Nos últimos cinco anos, ao menos 19.254 feminicídios foram registrados na região, segundo o Observatório de Igualdade de Gênero da América Latina e do Caribe (OIG) da CEPAL. Na maioria dos casos, as mortes violentas são perpetradas por parceiros ou ex-parceiros, o que demonstra que a violência de gênero continua instalada nos espaços mais cotidianos.

Violência feminicida na região

O Brasil lidera os números mais alarmantes. Em 2025 registrou 1.470 feminicídios, o número mais alto da última década — uma média de quatro mulheres assassinadas por dia, de acordo com dados do Ministério da Justiça. Nesse contexto, Eva Rafaela Calça insistiu que a violência não se limita ao assassinato: também se expressa na exclusão e na sobrecarga. Para ela, é urgente “um espaço público que valorize a infância como uma responsabilidade de toda a sociedade, e não apenas da mãe”, porque muitas vezes “a mãe fica sobrecarregada”, além de políticas que ampliem oportunidades de trabalho para mulheres trans “para além da informalidade e da prostituição”. Sua reflexão conecta a violência feminicida com a falta de políticas de cuidado e com a marginalização estrutural das mulheres trans.

Na Colômbia, onde o Observatório Colombiano de Feminicídios registrou 973 casos em 2025, a impunidade continua sendo uma ferida aberta. María Camila Zúñiga lembrou que, além de exigir justiça diante dos assassinatos, é fundamental que “reconheçam o trabalho que as mulheres realizam com as infâncias, a partir dos territórios”, e que suas vidas sejam dignificadas. “Sabemos que, quando uma mulher é assassinada, a justiça nem sempre chega”, acrescentou.

No México, onde o Secretariado Executivo do Sistema Nacional de Segurança Pública registrou 721 feminicídios em 2025, a violência se entrelaça com o racismo estrutural. Daniela Islas advertiu que, para as mulheres afromexicanas, a urgência passa também pelo reconhecimento: “o que mais nos urge é o reconhecimento dos nossos direitos, que existam mais políticas públicas para as mulheres afromexicanas, onde se nos garanta atenção médica”. Ela também se referiu ao que mais deseja: “Imaginamos um mundo sem racismo, sem discriminação, onde nossos direitos como mulheres afromexicanas sejam reconhecidos e protegidos”. A violência de gênero, em seu território, não pode ser separada da discriminação racial.

Em Cuba, organizações independentes como o Observatório de Gênero de Alas Tensas (OGAT) e Yo Sí Te Creo en Cuba (YSTCC) registraram 48 feminicídios em 2025 e alertam que esses crimes são o desfecho de violências prolongadas. Lourdes Esquivel expressou isso a partir da dureza de sua realidade: “Em Cuba, todos os direitos das mulheres são violados. Encarceram nossos filhos, os matam, nos golpeiam. Passamos fome. Há crianças que não têm nada para comer”. Seu testemunho recordou que a violência também se manifesta na fome, na repressão e na dor cotidiana.

Na República Dominicana, onde foram registrados 59 assassinatos de mulheres no ano passado (de acordo com a Fundação Vida Sin Violência), os números convivem com políticas e práticas que afetam especialmente mulheres migrantes e de ascendência haitiana. Estefany Feliz Pérez denunciou que, se não possuem documentos de identidade, “não recebem assistência à saúde e tampouco podem estudar”, e que existe “uma perseguição contra as mulheres haitianas e as dominicanas de ascendência haitiana” que inclusive implica detenções arbitrárias e pagamentos indevidos.

Em nível global, as mulheres possuem apenas 64% dos direitos legais que os homens têm, segundo a ONU Mulheres. Mantido o ritmo atual, fechar essas lacunas poderia levar séculos. Diante desse panorama, o encontro virtual de 19 de fevereiro foi mais do que um espaço simbólico: foi uma aposta na articulação regional.

Este manifesto também é a prova de que é possível construir acordos na diversidade. Seis mulheres de contextos distintos, com histórias e lutas próprias, conseguiram se encontrar sem terem se conhecido antes, escutar-se com atenção e reconhecer-se em suas diferenças. Neste exercício de diálogo honesto e respeitoso identificaram necessidades comuns e teceram uma voz coletiva. Esse espaço virtual não apenas permitiu compartilhar denúncias, mas também demonstrar que a articulação regional é uma ferramenta poderosa quando se baseia na escuta, no respeito e na consciência de que nenhuma luta está isolada.

Desde a Raza e Igualdad reafirmamos nosso compromisso de dar voz a quem resiste nos territórios e de acompanhar suas demandas. Porque quando as mulheres criam juntas, a memória resiste; e quando a memória resiste, também se constrói futuro.

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