Instituto Raça e Igualdade repudia declarações de Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, contra o movimento negro brasileiro

‘Escória maldita’ e ‘macumbeiros’ estão entre os xingamentos e ameaças destinadas à população negra

Em meio à pandemia do coronavírus, da qual o Brasil já se tornou o terceiro país do mundo com o maior número de óbitos, o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, chamou o movimento negro de ‘escória maldita’ da humanidade, além de ameaçar militantes e líderes de religiões de matriz africana. [1]. Essas, entre outras ofensas, vieram a público após o vazamento do áudio de uma reunião com servidores da Fundação, em que Sérgio Camargo confirmam seu desrespeito pela população afro-brasileira.

Fundada em 1988, a Fundação Cultural Palmares é uma instituição pública federal vinculada, atualmente, à Secretaria da Cultura e ao Ministério do Turismo. O órgão foi criado para formular ações e políticas públicas que visem a promoção e preservação dos valores socioculturais, históricos e econômicos decorrentes da influência negra na sociedade brasileira. No entanto, desde a posse de Sérgio Camargo como presidente da instituição, em vez de proteção ao legado negro na formação do país, o que ocorre são diversos ataques às lutas e conquistas do povo negro, reiterando, assim, a ideologia racista do governo atual. [2]. Assim que foi indicado para o cargo, em novembro de 2019, Sergio Camargo chegou a ter sua nomeação suspensa por relativizar temas como escravidão e racismo no Brasil, em publicações nas redes sociais. Porém, em fevereiro deste ano, tomou posso como presidente da Instituição.

Nessa mesma gravação, Camargo ofendeu a memória de Zumbi dos Palmares, liderança negra histórica brasileira que dá nome a Fundação a qual preside, e seguiu menosprezando a agenda racial do Dia da Consciência Negra, que ocorre durante todo mês de novembro, afirmando que não irá mais apoiar atividades referentes às comemorações do dia. Além dos mais, as ameaças no áudio seguiram-se quando Camargo afirmou que vai retirar o investimento social relativo às religiões de matriz africana e, de modo pejorativo, referiu-se aos praticantes como “macumbeiros”, afirmando que “macumbeiro não vai receber nem um centavo”.

É importante ressaltar que, entre os meses de março e abril, a Fundação Palmares demitiu aos menos dez trabalhadores, indo na contramão das ações praticadas pelos governos mundiais durante a pandemia de Covid-19, até mesmo nas ações do governo brasileiro, que aplicou investimentos a fim de evitar o aumento de desemprego no país. [3]. Desse modo, explicita-se o descaso da instituição com o avanço do coronavírus e, consequentemente, com a vida dos seus funcionários. Nesse sentido, um órgão público que deveria estar atento aos mapas de vulnerabilidade da pandemia no país, nos quais os avanços da doença se refletem em mais óbitos entre a população negra e pobre, apresenta-se nesse momento em total retrocesso. [4].

Em resposta aos ataques sofridos, o movimento negro brasileiro protocolou, junto ao Ministério Público, uma ação pedindo a exoneração de Sérgio Camargo da presidência da Fundação. Entre elas, a Coalizão Negra por Direitos, que reúne mais de 150 organizações do movimento negro, pede a apuração do crime de desvio da finalidade do órgão público, improbidade administrativa, assim como práticas racistas, discriminação religiosa e perseguição aos servidores públicos. Outras ações pedindo a exoneração de Camargo foram protocoladas pela Defensoria Pública da União e um inquérito para investigar as ações de Camargo foi registrado na Câmara dos Deputados. [5].

Em vista dos acontecimentos listados ao longo desse texto, o Instituto Internacional Raça e Igualdade ressalta a importância da promoção pelo Estado Brasileiro dos direitos da sua população negra, que deve oferecer-lhes condições dignas de existência e acesso à cidadania. Por isso, recomenda ao Estado brasileiro que substitua a presidência da Fundação Palmares por alguém que apresente um profundo comprometimento com a agenda antirracista brasileira, bem como que adote medidas para, ao contrário das recentes declarações, possam valorizar a cultura negra no país.

No mais, o Raça e Igualdade repudia as declarações de cunho racistas de Sérgio Camargo, que refletem o desamparo e o silenciamento da cultura e do povo negro no Brasil, frutos do racismo estrutural vigente.

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[1]https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/06/02/sergio-camargo-presidente-da-fundacao-palmares-chama-movimento-negro-de-escoria-maldita-em-reuniao.ghtml

[2] https://veja.abril.com.br/brasil/bolsonaro-e-acusado-de-racismo-por-frase-em-palestra-na-hebraica/

[3] https://almapreta.com/editorias/realidade/em-meio-a-pandemia-do-covid-19-fundacao-cultural-palmares-demite-funcionarios

[4] https://www.geledes.org.br/por-que-a-covid-19-e-tao-letal-entre-os-negros/

[5] https://oglobo.globo.com/cultura/manifestantes-pedem-saida-de-sergio-camargo-da-fundacao-palmares-1-24464373

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