25 de julho: As mulheres afrodescendentes cultivam a vida, protegem suas comunidades e constroem o futuro
Rio de Janeiro, 25 de julho, 2026.– Em 25 de julho, celebra-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana, Caribenha e da Diáspora. Trata-se de um dia para reconhecer, nomear […]
Rio de Janeiro, 25 de julho, 2026.– Em 25 de julho, celebra-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana, Caribenha e da Diáspora. Trata-se de um dia para reconhecer, nomear e visibilizar a força de milhões de mulheres negras que, na América Latina e no Caribe, cultivam a vida, protegem seus territórios e constroem, com suas próprias mãos, alternativas de futuro mais justas.
Essa celebração nasce de um contexto de exploração e opressão profundas. As mulheres afrodescendentes seguem enfrentando a sobreposição entre racismo e violência baseada em gênero, num cenário em que as sociedades da América Latina e do Caribe ainda enfrentam desafios estruturais profundos em relação à equidade de gênero e raça. É uma violência que se manifesta em diferentes esferas: no acesso desigual à educação, à saúde, ao trabalho digno e à participação política; nas violências físicas e simbólicas que atingem seus corpos — inclusive violência doméstica, feminicídio, violência sexual, obstétrica, política, policial e discursos de ódio; e nas ameaças que recaem sobre suas lideranças quando decidem defender seus territórios, suas comunidades e seus direitos, além da exploração não remunerada do trabalho de cuidado.
Essas desigualdades são o resultado direto de séculos de colonialidade, de exclusão racial e de um pacto social que, na maior parte dos países da região, nunca reconheceu efetivamente as mulheres negras como sujeitas de direitos. Falar do 25 de julho é, portanto, também falar de história — da resistência que atravessou o período colonial, a escravização e as décadas de exclusão pós-abolição — e de presente, reconhecendo que essas desigualdades continuam moldando as condições de vida de milhões de mulheres afrodescendentes hoje. Raça, etnia, gênero, sexualidade, classe social e território são fatores que potencializam significativamente os episódios de violência e o impacto da perda de direitos e do desfinanciamento de políticas públicas. Nesse sentido, é indispensável levar em conta a subalternização e a exploração específicas às quais as mulheres negras foram e são submetidas na América Latina e no Caribe, onde até hoje se perpetuam relações de poder colonialistas e imperialistas.
Protagonismo e sustento
Ainda assim — e é este o eixo central que este texto pretende afirmar — as mulheres afrodescendentes não podem ser descritas apenas como vítimas dessas violências. Elas são, antes de tudo, protagonistas: defensoras de direitos humanos, cuidadoras, lideranças comunitárias, guardiãs da memória coletiva e construtoras cotidianas de sociedades mais justas e democráticas. É esse protagonismo que o Instituto Raça e Igualdade quer colocar no centro da conversa neste 25 de julho.
O cuidado é um trabalho historicamente invisibilizado e não remunerado, que é a base sobre a qual se erguem famílias, economias locais e culturas inteiras. Nas casas, nos bairros, nas comunidades rurais e urbanas, são majoritariamente mulheres negras que garantem o cuidado das crianças e das pessoas idosas, que alimentam, que curam, que ensinam.
Esse cuidado deve ser compreendido como uma ferramenta política de cultivo e promoção da vida coletiva, uma prática que garante a continuidade das comunidades afrodescendentes diante de contextos adversos. Cuidar, nesse sentido, é resistir e é também construir: é a forma mais cotidiana e mais constante de manter vivas as famílias, as tradições e os laços comunitários.
Além disso, mulheres afrodescendentes movimentam economias populares, redes de comércio informal, produção agrícola e economia solidária que sustentam bairros inteiros. Elas também são protagonistas na ocupação de espaços de poder, na produção de conhecimento e na tomada de decisões. Muitas vezes são chefes de família, provedoras principais de seus lares, e carregam essa responsabilidade em meio a múltiplas jornadas de trabalho precarizado e a uma desigualdade salarial que penaliza duplamente por serem mulheres e por serem negras.
Memória e defesa
E esse cultivo se dá, ainda, pela cultura: mulheres afrodescendentes transmitem saberes ancestrais e recuperam, reelaboram e atualizam constantemente esses conhecimentos diante dos desafios do presente. Essa transmissão intergeracional de saberes é, em si mesma, uma forma de resistência coletiva: um patrimônio que resiste ao apagamento e que se transforma em ferramenta de proteção e de futuro.
Se cultivar a vida é um trabalho cotidiano e invisibilizado, proteger as comunidades é um exercício de liderança pública. Mulheres afrodescendentes estão à frente de organizações comunitárias, movimentos de base, coletivos de defesa de direitos humanos e processos de resistência territorial em toda a região. São elas que, muitas vezes na linha de frente, denunciam violações, acompanham vítimas, articulam redes de proteção e levam suas demandas a espaços de incidência política, nacional e internacional.
Essa liderança não vem sem retaliações do sistema cisheteropatriarcal. As mulheres negras que decidem defender seus territórios — sejam eles rurais, quilombolas, urbanos ou periféricos — enfrentam ameaças, estigmatização e, em muitos países da região, risco real à própria vida. A violência política e de gênero contra lideranças afrodescendentes segue sendo uma das expressões mais graves da desigualdade racial nas Américas. Ainda assim, essas mulheres seguem de pé, à frente, conduzindo processos de defesa de direitos e de proteção territorial.
Proteger também significa preservar a memória. Mulheres afrodescendentes são guardiãs de histórias que o racismo estrutural tentou apagar: memórias de resistência, de ancestralidade, de luta coletiva. Nesse sentido, a construção da paz nos territórios afrodescendentes passa, necessariamente, pelas mãos dessas mulheres, que mantêm processos comunitários de convivência, reparação e cuidado coletivo mesmo em contextos de violência persistente.
Essa proteção também tem uma dimensão coletiva e organizativa: são as mulheres afrodescendentes que, com frequência, articulam redes de apoio mútuo entre organizações, criam espaços seguros para outras mulheres e meninas, e constroem pontes entre suas comunidades e instâncias nacionais e internacionais de proteção de direitos humanos. É um trabalho que exige constância e estratégia, e que muitas vezes significa um enfrentamento direto com estruturas de poder que preferem silenciar essas vozes.
Futuro
O protagonismo das mulheres afrodescendentes se projeta, de forma decidida, sobre o futuro. Essa projeção acontece, primeiramente, pela educação, em especial pelo acesso que buscam e conquistam, rompendo barreiras estruturais de exclusão racial e de gênero. Acontece também pela participação política: mulheres afrodescendentes ocupam, cada vez com mais força, espaços políticos — em parlamentos, em conselhos, em organismos internacionais de direitos humanos, em espaços multilaterais — levando para essas mesas as demandas concretas de suas comunidades. Essa presença, ainda minoritária diante da sub-representação histórica de mulheres negras nos espaços de poder, representa uma transformação profunda, fruto de séculos de resistência.
E acontece, por fim, pela formação das novas gerações, sobretudo na transmissão de um projeto de futuro. Ao educar, ao organizar, ao ocupar espaços de decisão, mulheres afrodescendentes ativamente constroem alternativas, novas formas de convivência comunitária, novos modelos de liderança e novos caminhos para que as próximas gerações vivam com mais dignidade, mais direitos e menos violência.
Compromisso
É justamente nesse ponto de protagonismo das mulheres negras que se situa o trabalho de Raça e Igualdade, instituição que conta com a contribuição de diversas mulheres negras que compõem nossa equipe e que estruturam estratégias concretas de enfrentamento ao racismo, ao machismo e à LGBTQIAPN+fobia. Nós atuamos ao lado de ativistas e organizações de mulheres afrodescendentes em toda a América Latina, apoiando a documentação e o registro de violações e fortalecendo sua capacidade de incidência nos espaços nacionais e internacionais de decisões. Promovemos a participação efetiva dessas lideranças perante a Organização dos Estados Americanos e mantemos comunicação permanente com a CIDH, além de contribuir com relatórios e recomendações no Fórum Permanente sobre Povos Afrodescendentes da ONU e no Mecanismo de Especialistas para Promover a Justiça e a Igualdade Racial na Aplicação da Lei.
Esse trabalho de incidência já resultou em relatórios que analisam a participação política de mulheres afrodescendentes no Brasil, no Chile, na Colômbia e em Honduras, dando visibilidade tanto à violência política que as atinge — de forma ainda mais aguda quando são também mulheres trans — quanto às estratégias que elas próprias constroem para ocupar espaços de poder e de decisão. Promovemos, ainda, diálogos regionais e internacionais que conectam a experiência das mulheres afrodescendentes latino-americanas e caribenhas às lutas da diáspora africana em outros contextos, fortalecendo redes de solidariedade e de aprendizado mútuo entre lideranças de diferentes países. Esse é o compromisso que Raça e Igualdade reafirma neste 25 de julho: seguir ao lado de organizações de mulheres afrodescendentes, fortalecendo suas lutas para transformar a realidade de suas comunidades e sociedades.
Reconhecer e celebrar a agência que as mulheres negras exercem na América Latina e no Caribe é essencial para, de fato, avançar na igualdade racial e de gênero. Porque as mulheres afrodescendentes cultivam a vida todos os dias, cuidando de suas famílias e de suas comunidades; elas protegem seus territórios, suas lideranças e sua memória coletiva; elas se organizam politicamente e ocupam espaços de poder; e elas constroem, com decisão e coragem, os caminhos de um futuro mais justo, mais democrático e mais digno para si mesmas, para toda a sociedade e para as próximas gerações.