Organizações de mulheres no Brasil abordam desafios e direitos desde uma perspectiva interseccional com Relatora da CIDH
Rio de Janeiro, 8 de outubro de 2026.– Entre 8 e 11 de setembro de 2026, a Sra. Marion Bethel, Relatora sobre os Direitos das Mulheres da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), realizou uma agenda de diálogos acadêmicos e com organizações da sociedade civil no Brasil, com agenda em São Paulo e no Rio de Janeiro. A visita foi organizada pelo Instituto sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos (Raça e Igualdade), em articulação com organizações parceiras como Geledés – Instituto de Mulheres Negras, Conectas Direitos Humanos e ONG Criola, e teve como foco o fortalecimento das capacidades locais e a difusão dos padrões interamericanos de proteção aos direitos humanos.
Em quatro dias, a Relatora dialogou com organizações de mulheres negras, quilombolas, indígenas, ciganas, lésbicas, bissexuais, trans e travestis, mulheres com deficiência e mulheres de favelas e periferias. Também ouviu lideranças religiosas de matriz africana, mães de vítimas da violência do Estado, estudantes e pesquisadoras do campo do Direito.
O Brasil enfrenta desafios estruturais em matéria de igualdade de gênero, com lacunas históricas na implementação dos compromissos assumidos no âmbito da Convenção Americana sobre Direitos Humanos e da Convenção de Belém do Pará. A violência contra as mulheres se manifesta de muitas formas: doméstica, sexual, obstétrica, política, policial, online e por discursos de ódio, além da exploração não remunerada do trabalho de cuidado. Raça, etnia, gênero, sexualidade, classe e território potencializam a violência e o impacto do desfinanciamento de políticas públicas na vida das mulheres.
A Relatoria sobre os Direitos das Mulheres da CIDH, atualmente exercida por Marion Bethel (Bahamas), tem mandato para monitorar a situação dos direitos das mulheres nos Estados membros da OEA, realizar visitas e produzir relatórios temáticos.
A visita começou em 8 de setembro, na sede do Geledés, com uma reunião fechada sobre violência institucional, acesso à justiça e empoderamento de mulheres negras, aberta por Rodnei Jericó (Raça e Igualdade) e Sueli Carneiro (Geledés), com moderação de Nilza Iraci. A discussão desdobrou-se em debates sobre violência doméstica e sexual (Maria Sylvia de Oliveira), racismo religioso (Ialorixá Marisa) e resistência comunitária (Juliana Gonçalves, Maria José e Neon Cunha). A Comissária Marion Bethel destacou a importância de registrar violações e o uso das ferramentas da Relatoria para cobrar responsabilização e reparação do Estado brasileiro.
À tarde, sob moderação de Maria Paula Custódio, de Raça, Igualdade, o tema foi “Violações dos direitos de mulheres negras, LBTI e periféricas: desafios interseccionais”. Thábata Wbalojá, representante da Cooperativa de Artistas da Cidade Tiradentes, apontou o cenário vivido especialmente na periferia e como a arte é uma ferramenta potente na promoção e proteção de direitos humanos. Luciana Viegas, uma das idealizadoras do movimento Vidas Negras com Deficiência Importam (VNDI), destacou a interseccionalidade entre raça e deficiência, e Marion Bethel sinalizou o interesse da CIDH em produzir estudos com abordagem interseccional.
Em 9 de setembro, na Conectas Direitos Humanos, ocorreu um evento sob o tema “Desafios para efetivação dos direitos das mulheres no Brasil: uma perspectiva interseccional”, reunindo um amplo grupo da sociedade civil. Os debates abordaram criminalização dos direitos sexuais e reprodutivos, superencarceramento das mulheres, violências contra mulheres trans e intersexo e perseguição a ativistas. Marion Bethel detalhou o funcionamento da Relatoria de Mulheres da CIDH e os caminhos para audiências, informes e medidas cautelares. O encontro produziu subsídios que poderão ser incorporados aos relatórios da Relatoria, fortalecendo a incidência internacional para exigir do Estado brasileiro o cumprimento da Convenção Americana e da Convenção de Belém do Pará.
Em 10 de setembro, a Relatora esteve no Centro de Direito da Universidade Cândido Mendes para uma aula aberta sobre perspectivas de gênero e raça no Sistema Interamericano, voltada a estudantes de graduação e pós-graduação em Direito. A mesa teve moderação do Prof. Siddharta Legale e abertura da Reitora Andrea Navarro, do Prof. Eduardo Val e de Brisa Lima, Consultora sobre Raça e Gênero do Instituto Raça e Igualdade, com fala da pesquisadora Lara Campos.
À tarde, no escritório da Fundação Open Society, um encontro com organizações de mulheres do Rio, moderado por Brisa Lima, discutiu os principais desafios e ameaças aos direitos das mulheres brasileiras e como a Relatora Especial sobre os Direitos das Mulheres pode ajudar a aumentar a conscientização sobre as reivindicações apresentadas pelos movimentos de mulheres. Piedade Marques da Articulação de Organizações de Mulheres Negras (AMNB) e da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, e Bruna Suelen, da Associação dos Filhos e Amigos do Ilê Omi Àsé Òfà Kare (Afaia) fizeram a abertura. Mães de vítimas da violência do Estado, mulheres dos territórios de favela ligadas à Redes da Maré, Odara – Instituto da Mulher Negra, a campanha Nem Presa Nem Morta e a Aldeia Maracanã também participaram.
À noite, a Relatora participou de uma aula na Escola de Formação Política Kátia Tapety, projeto liderado por Raça e Igualdade, com o tema “Legado e Palavra: Democracia em Trajetórias de Mulheres”. O encontro aproximou as alunas da Escola da relatoria e teve como principal objetivo fortalecer o ativismo das alunas envolvidas no projeto a partir das suas regiões e áreas de atuação. A Relatora dividiu um pouco da sua trajetória e reforçou a importância de um ativismo que seja, antes de qualquer coisa, conectado com propósitos coerentes.
O último dia, 11 de setembro, foi dedicado a reuniões no Rio de Janeiro. A Relatora ouviu lideranças religiosas de matriz africana sobre o papel das mulheres no enfrentamento ao racismo religioso e na guarda da memória da diáspora africana, momento que contou com as contribuições da Professora de Direito Thula Pires, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), e da moderação e contribuições de Lúcia Xavier, fundadora da ONG Criola.
Ainda pela manhã, a relatora também se reuniu com organizações de mulheres negras sobre os desafios enfrentados no Brasil para garantir os direitos desses grupos, tais como o acesso à saúde, à educação e à moradia; o direito à representação política; e o combate à violência. Gabriela Ashanti, integrante do Odara – Instituto da Mulher Negra (Bahia), fez uma fala de abertura. O momento também contou com contribuições importantes representantes da ACQUILERJ/CONAQ; da Afaia; do Fórum de Mulheres Negras; do Instituto Selo Juristas Negras; do Instituto Marielle Franco; de Criola; da Articulação de Organizações de Mulheres Negras (AMNB)/Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e da Mulheres Negras Decidem. Para finalizar, à tarde, foi realizada uma reunião entre a Relatora e organizações de mulheres lésbicas, bissexuais, trans e travestis sobre educação, moradia, representação política e violência, acesso a políticas públicas e o avanço da retórica e dos ataques LBTIfóbicos.
Para nós, do Instituto Raça e Igualdade, a agenda civil realizada em São Paulo e no Rio de Janeiro colaborou para o fortalecimento das capacidades locais e a difusão dos padrões interamericanos de proteção aos direitos humanos. A visita aproximou o Sistema Interamericano das experiências concretas de quem enfrenta, no cotidiano brasileiro, o racismo e o sexismo institucionais. Ao mesmo tempo, evidenciou que a resistência dos movimentos de mulheres — especialmente das mulheres negras, das periferias e LBTI — tem se traduzido em conquistas que vêm remodelando, ainda que lentamente, as estruturas democráticas do país.